<?xml version='1.0' encoding='UTF-8'?><?xml-stylesheet href="http://www.blogger.com/styles/atom.css" type="text/css"?><feed xmlns='http://www.w3.org/2005/Atom' xmlns:openSearch='http://a9.com/-/spec/opensearchrss/1.0/' xmlns:georss='http://www.georss.org/georss' xmlns:gd='http://schemas.google.com/g/2005' xmlns:thr='http://purl.org/syndication/thread/1.0'><id>tag:blogger.com,1999:blog-8534442</id><updated>2011-07-03T15:29:10.870-07:00</updated><title type='text'>Chamam-se assim</title><subtitle type='html'>&lt;i&gt; como todos se chamam, se dizem chamar, como nos v&amp;atilde;o chamando por a&amp;iacute;&lt;/i&gt;</subtitle><link rel='http://schemas.google.com/g/2005#feed' type='application/atom+xml' href='http://chamam-se.blogspot.com/feeds/posts/default'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8534442/posts/default?max-results=100'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://chamam-se.blogspot.com/'/><link rel='hub' href='http://pubsubhubbub.appspot.com/'/><author><name>Ric ;)</name><uri>http://www.blogger.com/profile/14679730585851880195</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='http://4.bp.blogspot.com/-xUFKkHvceDE/ThDtCj9b8oI/AAAAAAAAE80/wNsfg-HpGuI/s220/ric-o-matic.jpg'/></author><generator version='7.00' uri='http://www.blogger.com'>Blogger</generator><openSearch:totalResults>19</openSearch:totalResults><openSearch:startIndex>1</openSearch:startIndex><openSearch:itemsPerPage>100</openSearch:itemsPerPage><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-8534442.post-112973845363922424</id><published>2005-10-19T09:12:00.000-07:00</published><updated>2005-10-19T09:14:13.643-07:00</updated><title type='text'>Chamavam-lhe “O Marinheiro”</title><content type='html'>No dia 1 de Janeiro do ano de 2002, mais conhecido pelas bocas dos transeuntes como o “dia de ano novo”, pelos bancários e economistas como o “dia de estreia do euro”, pelos trabalhadores da meia-noite como o “nunca mais passa?!” e pela minha avó simplesmente como “ano novo ou ano velho são todos iguais!”... Corria, portanto, já o primeiro dia do ano a seguir ao anterior - para os curiosos, a saber uma terça-feira- quando todos os locais de uma pequena vila deixaram de ver, nas regulares ocasionais aparições pelos cafés e pastelarias e restaurantes aquele que era conhecido e a quem chamavam de “Marinheiro Ex-Reformado”, ou simplesmente “O Marinheiro” ou, ainda, “o Ex-Reformado”, que isto gente parcial abunda por toda a parte...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quem saberia a sua real situação, desconhecia-se, mas era caricata. As perguntas sucediam-se como a praça ao meio-dia, mas as respostas desertificavam-se como a praia vista de madrugada. Pelas bancadas dos cafés e varandas de vizinhas, contudo, era certa a nascente do bizarro título, pois que só aí mesmo surgia este tema para conversa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas que fazia ele antes? Pescador ou marinheiro.&lt;br /&gt;Mas chegara à reforma?...&lt;br /&gt;Quem saberia?...&lt;br /&gt;Sabia-o o próprio, de certeza.&lt;br /&gt;Mas alguém lho escutara?&lt;br /&gt;Alguém o escutara?...&lt;br /&gt;Talvez o tivesse dito num momento de clareza de voz sobre as outras sempre amontoadas.&lt;br /&gt;Mas em que dia?...&lt;br /&gt;Quem tinha estado atento?...&lt;br /&gt;“O Ex-Reformado”...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;...Posição de vida curiosa para quem escutava tal coisa pela primeira vez, mas como não o escutava da boca do próprio tornava-se assim matéria mais para um sorriso que título de loucura. Seria um homem indeciso... Ou talvez um rotineiro ciclo do faz e desfaz, desiste e volta a tentar... um daqueles velhos que do hábito de uma vida a trabalhar já não consegue estar quieto.&lt;br /&gt;O facto, esse indesmentível e que ficaria mesmo para a história da vila, é que nesse primeiro dia do ano se deixou de ver pelos poisos de costume o conhecido de longe marinheiro, pescador, ex-reformado solitário misterioso.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Os que, do tempo tendo-o visto mais do que uma vez, podiam agora recriar parte da sua  rotina, relatando em pequenos movimentos de braços -a maior parte apoiados numa coxa ou sobre o pau de uma bengala- como aquele homem se deixava estar por ali, sempre discreto, sempre a uma mesa sentado de forma desleixada, desajeitada e descuidada, sempre de camisa grossa com as pontas de fora da camisola e quase sempre de costas voltadas para a parede. Sempre assim. O corpo começava curvado sobre a mesa, depois ia-se voltando, ficando de lado, e a dada altura já tinha escorregado pela cadeira envernizada e a mão segurava a cabeça, uma cabeça robusta e redonda e de cabelos desalinhados e grisalhos a cobri-la, uma cabeça com um rosto definido e de rugas fundas, barba por fazer e rija, dois olhos cinzentos que olhavam o que iam olhando por olhar, ou realmente estariam menos atentos do que aparentavam e atentavam nos restantes, em amizades com as companhias humanas e alimentares. Quanto a si, quase sempre se deixava entregue apenas ao seu copo de cerveja, que nunca bebia até ao fim, alguém o notara uma vez. E quem dono dos cafés, não perguntava mais do que aquilo que já se sabia. E o marinheiro na ex-reforma nada também dizia por acrescento, nem sequer uma nova ruga se lhe desenhava por isso, talvez um completo alheamento a tal curiosidade fosse o que lhe pairasse na alma verdadeiramente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E assim, com uma história comprovada e conhecida que se poderia resumir a duas linhas de uma coluna de jornal, se deixou de saber no primeiro dia do ano de 2002 mais alguma coisa desta presença regular, ainda que discreta e só notada pelos de maior frequência nas cadeiras e com tempo de sobra, e também com alguma visão atenta.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Contudo, o mais triste nem seria este dia de decisivo abandono ou desaparecimento deste homem tão curioso aos outros como tão pacífico e reservado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O mais triste foi, meses depois do seu desaparecimento confirmado pelo tempo, quando já o próprio facto esmorecera pelo acontecimento em si ou quando só os resquícios do seu nome e título sobreviviam, aparecendo a seguir aos temas vagos de recurso “tempo”, “clima” e “lá por casa”, foi só então que se descobriu, por um qualquer parente afastado ou conhecido de confiança que veio limpar e vender a casa –falada e nomeada localmente por “velha barraca carcomida”-, que muitas histórias havia da boca deste homem escritas em papel, histórias que decerto, se alguém lhas tivesse pedido, certamente as teria contado, apenas e muito provavelmente com a mínima exigência de ser à noite e em volta de uma lareira, ao borralho, esquentado até mais pela atenção em volta e pelo copo ao lado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Recriminaram-se alguns por não terem insistido em quebrar-lhe o silêncio, puxando a língua deste velho até muito bem conservado. Outros cedo esqueceram isso e do mesmo modo se debruçaram no testemunho legado ao futuro ou mais propriamente ao acaso.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eram papéis intermináveis, folhas sobre folhas que se juntavam em blocos e formavam pilhas onde se seguravam prateleiras intermináveis com mil e um artifícios e ‘souvenirs’ artesanais que fizera e ali deixara, como tudo o resto, à excepção da sua presença em corpo e vestimenta.&lt;br /&gt;De entre todas, havia uma bela história, com certeza autobiográfica, a narrar as aventuras e desventuras de um jovem oficial da marinha; este, segundo se contava, ter-se-ia apaixonado verdadeiramente num certo dia de Verão, depois de mil portos visitados e o triplo das viagens rendidas ao serviço da companhia; contudo, o destino ou a vida simplesmente em si, fora-lhe traiçoeira e trágica, e apaixonara-se o jovem oficial pela única mulher que, de entre milhares, viria a desaparecer no mar, fatidicamente, um ano depois de consumado o casamento de ambos, ocorrência esta suficiente e, segundo alguns, até justificável e sem repreensão, que levou então o jovem oficial a desistir da carreira de uniforme e a enveredar por um labiríntico rodopio de mais de 30 anos no mar a segurar a roda do leme pelo traço de rotas mercantes secundárias e perigosas tanto quanto a morte; Mediterrâneo, Atlântico e até o Árctico, sem contar a rotina pelo Mar do Norte... sempre a desafiar a vida, sempre no fio da navalha, e nunca, nem por uma só vez, o barco em que seguia se voltou, nunca mais de uma vela se rasgou, nunca um motor quebrou... após tal evidência aceite daquilo que o esperava, ou melhor dizendo, do que ele teria de esperar, afastou-se de todos quantos conhecia e foi encontrar, remotamente, um local calmo e pacífico, onde numa simples barca se deixou a apanhar peixe diariamente; aprendeu meia-dúzia de palavras da língua natal da sua nova casa (ahh!, exclamaram os naturais e os biógrafos quando deitaram pela primeira vez os olhos aos papéis com as histórias) e foi vivendo do pouco dinheiro do peixe seco que então já ia reunindo alguns adeptos, escassos fanáticos mas vários curiosos; com o tempo, a carne ficara mais balofa e envolta por gordura, e apenas nas arestas da face a expressão seca pelo sol e pelo sal se mantinha; a barba era sempre de dias; a expressão distante; a voz muda; enfim a figura desaparecera como aparecera.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nas demais histórias incluíam-se, entre as que posteriormente foram traduzidas e publicadas, a de um caranguejo medroso e a de um cavalo marinho que saltava mais ostras juntas que qualquer outro, relatos de viagens, aventuras no mar alto (colocadas estas nas prateleiras temáticas das bibliotecas junto ao "Moby Dick" do Melville, o que decerto muito teria orgulhado ao marinheiro agora também autor misterioso) e também pequenos contos inacabados, outros refeitos e com finais diversos, alguma poesia, narrações desconexas, vários diários e muitas cartas, ainda seladas e deixadas por enviar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Alguns desenhos e ilustrações deste misterioso estrangeiro, que preenchiam várias das páginas brancas e virginais na compra dos cadernos, foram também reproduzidas na tipografia local da vila, depois distribuídas pelas crianças, que as pintaram a seu gosto, e finalmente os melhores resultados expostos no salão da Câmara; daí, alguns seleccionáveis, entre dedicácias e pinturas de autores consagrados em homenagem à personagem misteriosa, seriam também reproduzidos, expostos e publicados, este último verbo apenas para uma dezena de entre os previamente escolhidos, a rematar a compilação com o aval e mecenato da Câmara, a celebrar as tradições piscatórias e marítimas da vila.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A verdade, no entanto, é que o desaparecimento de alguns homens, ao que parece, é rápido e instantâneo, quando de imediato se dá pela sua partida, como também pode ser presenciado e mantido por instantes mas sem se afastar do fugaz, situação em que o facto não passa despercebido mas também não ocupa preocupações, como pode ser nunca desprovido de mistério, tragédia e uma boa dose de romantismo, no caso de raros factos haver para explicar e descrever o enquadramento, sempre gerando portanto efabulações, dúvidas e várias versões para a mesma história incompleta, todas tão parcas de confirmação quanto recheadas de segredos, enigmas e até mitos, assim alongando-se no tempo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;As crianças, essas, aproveitam o que existe para sussurrarem aos ouvidos umas das outras, e sobretudo das mais velhas para as mais novas e pequenas, nas noites mais nevoentas e frias, que o marinheiro de lança à caça de baleias deixará o mar alto para vir à costa e bem depois bem dentro da vila espetar a lâmina e apanhar para si o primeiro desgraçado, afogando-o em seguida e sem piedade, voltando depois sedento para os indesejados, os amedrontados, os que chorarem ou gemerem nem que baixinho debaixo dos lençóis.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Os pais deixam as lendas levitar e vaguear com sorrisos nostálgicos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Os mais velhos de todos, de mãos nas coxas e bengalas, voltam a repetir os mesmos relatos sobre “O Marinheiro Ex-Reformado”, agora já nomeado como “Marinheiro Desaparecido”, que a excertos colados aqui expus neste primeiro dia do ano de 2002, quando vão já começando a circular moedas novas pelos dedos das mãos de todos, pelos balcões ora sujos ora limpos, pelos bolsos mais pesados.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Distantes de tudo isto, a apenas alguns metros, na areia da praia, as gaivotas vão levantando voo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size:78%;"&gt;(escrito em 2002.01.01)&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size:78%;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size:78%;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/8534442-112973845363922424?l=chamam-se.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://chamam-se.blogspot.com/feeds/112973845363922424/comments/default' title='Post Comments'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=8534442&amp;postID=112973845363922424' title='4 Comments'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8534442/posts/default/112973845363922424'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8534442/posts/default/112973845363922424'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://chamam-se.blogspot.com/2005/10/chamavam-lhe-o-marinheiro.html' title='Chamavam-lhe “O Marinheiro”'/><author><name>Ric ;)</name><uri>http://www.blogger.com/profile/14679730585851880195</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='http://4.bp.blogspot.com/-xUFKkHvceDE/ThDtCj9b8oI/AAAAAAAAE80/wNsfg-HpGuI/s220/ric-o-matic.jpg'/></author><thr:total>4</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-8534442.post-112973827872243343</id><published>2005-10-19T09:10:00.000-07:00</published><updated>2005-10-19T09:15:11.540-07:00</updated><title type='text'>Chamam-me “gordo”</title><content type='html'>Gordo. Gorducho. Rechonchudo. Obeso. Bola. Adiposo. Forte. Anafado. Baleia. Balofo. Chama tu. Ele. Todos. Chama lá. Tens chamado. Diz-me na cara. Se eu pudesse. Oh. Se eu pudesse. Não digo. Penso. Maldito. Que tens tu? Perfeito? Chamam-me assim. Sei. Sei de certeza que chamam. Chamam isto e mais. Já ouvi. Já mo disseram. Até ao ouvido. Mas é quase sempre de longe. Quase sempre. Em sussurro. Para o lado. Como quando se cospe. Às vezes dizem que é na brincadeira. E chamam: “Ó gordo!”. Chamam mesmo. Já chamaram. Tantas vezes! Andava eu na escola e já chamavam. Sabem lá. Não sabem.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Entro numa loja. Chamam. Olham. Chamam a olhar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Saio do carro. Olho em volta. Todos me chamam. O olhar chama.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não olhem.&lt;br /&gt;Não de frente. Que tem? O meu umbigo. Todos temos. É um direito. Não precisa ser igual. Dilatado. Só isso. Peito descaído. Não é. Nada disso. Eu sei-o. Mas não precisam sempre olhar. Estar a chamar-me. Gordo. Gordo. Gordo... A olhar. Gordo. Gordo. Gordo... A apontar. Gordo. Gordo. Gordo...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Em casa. Vivo. Paz. Silêncio. Nem um só olhar. Às vezes. O contrário. O oposto. Todos ligam as tv’s. Às vezes tiram o som. Olham. Olham. E olham. Eu não. Não olho. Tiro os olhos. Dos outros. A imagem passa a preto. Só preto. Não me chamam mais. Cegos. Como na rádio. Ao telefone. Numa carta. Antes fosse. Já foi. A Clarinha. Falávamos muito. Mas depois. Tudo igual. Como as outras. Tudo bonito. No reino da fantasia é tudo bonito. Elas vêm só com o coração. Mas só quando não podem ver com os olhos. Nem passámos de duas horas. Um mês... Falámos um mês. Um mês para depois... Aquilo. Isto. Tudo. Igual. Todos. Chamem lá. Gordo. Baleia é a tua mãe. Palhaços. Queria a minha mãe ter netos. Nunca. Crianças. São as piores. Nem pensar. Pai gordo. Bastou o meu. Basto eu. Chego.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ao trabalho não ligo. Ando ocupado. Mas olham. De certeza. Olham. Que eu sei. Olham todos. Não me preocupo. Sabem a pergunta? De que cor são os meus olhos? Ninguém sabe. Só a minha mãe. Acho. Mas a barriga sabem. Guardam bem direitinho. “Tenho lá um gajo no trabalho que parece que anda grávido!”. “Anda lá um com uma barriga de 8 meses!”. “De gémeos!”. O costume. Eu não ligo. Já liguei. Nem os olho. Não preciso. Olho os tectos. Os cantos. As fendas. As juntas. Os planos. As plantas. Alicerces. Mais um traço. É preciso. Aqui. E ali. Corrigir isto. Aquilo. Chegam as 8. Nem faço caso. Saem todos. Eu não noto. Desligo. Saio.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Um dia. Um dia digo. Chamem-me gordo outra vez. Chamem. Não tenho problemas em admiti-lo. Mas não gosto. É diferente. Uma coisa não tem a ver com a outra. Sei que sou gordo. Não é por isso que me podem chamá-lo. Haja respeito. Sou apenas um homem. Engenheiro arquitecto. Pau para toda a obra. Tenho arcaboiço para isso. É o meu trabalho. Como. Sabe-me bem. Pronto. Está dito.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Chamam-me gordo em todo o lado. Por todo o sítio. Toda a gente. Já fiquei fulo. Hoje. Menos. Menos vezes. Mas mais gordo. Nem vou ao médico. Mas já me mandaram. Até para o circo.&lt;br /&gt;Esqueço.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não interessa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Chamem lá gordo. Gorducho. Rechonchudo. Obeso. Bola. Adiposo. Forte. Anafado. Baleia. Texugo. Elefante. Gorduroso. Nojento. Doente...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sou eu.&lt;br /&gt;Vítor Coelho...&lt;br /&gt;Destino cínico.&lt;br /&gt;Até ele.&lt;br /&gt;Até o nome.&lt;br /&gt;Até o nome me dá fome.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size:78%;"&gt;(escrito em 2004.09.30)&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size:78%;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/8534442-112973827872243343?l=chamam-se.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://chamam-se.blogspot.com/feeds/112973827872243343/comments/default' title='Post Comments'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=8534442&amp;postID=112973827872243343' title='0 Comments'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8534442/posts/default/112973827872243343'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8534442/posts/default/112973827872243343'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://chamam-se.blogspot.com/2005/10/chamam-me-gordo.html' title='Chamam-me “gordo”'/><author><name>Ric ;)</name><uri>http://www.blogger.com/profile/14679730585851880195</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='http://4.bp.blogspot.com/-xUFKkHvceDE/ThDtCj9b8oI/AAAAAAAAE80/wNsfg-HpGuI/s220/ric-o-matic.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-8534442.post-112479788609814172</id><published>2005-08-23T04:49:00.000-07:00</published><updated>2005-08-23T04:51:26.106-07:00</updated><title type='text'>Chamam o Tempo</title><content type='html'>Não corre. Viaja. Não pára. Fica. E passa. A mão. Mostra. Leva. Oferece. Quem o viu. Quem o vê. Diz tudo. Tudo. Apaga. Muda. Transforma. E tu? Leva-lo? Contigo. Connosco. Viste. Amargo. Árduo. Aceso. Vilão. Amigo. Um livro. Sem papel. Sem palavras. Sem código. Sem signo. Uma rua. Sem sinal. Apenas isso. Rua. Sem marco. Sem traço. Um espaço. Um deserto. Aberto. Sem braço. Sem pega. Rua aberta. Sem prédios. Nem um botão. Nada. Só rua. O tempo. Uma rua sem vista. Passa. Passa. Passa. Deixa passar. Tudo passa. A pé. Devagar. Devagarinho. Como o sofrimento. Talvez. Talvez por isso. Talvez? Talvez por isso o magoem. Porque magoa. Porque não muda. Frio. Mudo. Surdo. Cego. O tempo. O teu. De todos. Sem âncora. Sempre assim. Por aí. Criança. Perdido. Como o vento. Mãos dadas. Sem paragem. Onde o encontras? No relógio. Não vale. Mentira. Não vale. Um conto. É só isso. Simulacro. Mentirinha. Faz de conta. O verdadeiro. Esse. O tempo cru. Não se conta.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O tempo não se conta.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Chamam-lhe tempo. Ao tempo. Ao verdadeiro. Que não se dá conta. Que se espera que passe. Que se quer que não passe. Que se abomina quando. Que se aguarda. Parado. Se perde. Esguio. Delgado. Sem ponteiros. Sem marcas no solo. Sem bitolas. Sem sinos. Só manifestações. É ele. Aí sim. É ele. O tempo. Manifesto. Discreto. A mostrar-se. Nas rugas. Fotografias. Nas coisas perdidas. Nos estragos. Isto funcionava... Era assim... Quando mexia, era...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Se a caverna se fecha. Apaga. Se tuo lá dentro. Te fechas. Se o mundo morre. Se tudo escreve vou-me. Embora. Para sempre. Não adianta. O tempo fica. Não pára. Mas deambula. Passa. mostra. Leva. Só traz para isso. Levar. Tudo morreu? Tu não? O tempo não morre. Abstracto. E directo. A contar-te. Tum. Tum. Espaço. Tum. Tum. Espaço. Tum. Tum. Bate mais fraco. O coração. É ele. Aqui tão perto. Ao ouvido. A dizer-te. Estou aqui. Tão perto. Não te deixei. Nunca deixo. Mesmo sem teres a luz. Sem teres mais que isto. Um buraco. Eu não deixo. Fico. Parto. Mas volto. Estou aqui. Como o outro. Sempre. O mais forte. Até depois de perderes o sangue. Os ossos. Eu aqui. Sempre.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Por isso lhe chamam tempo. O mestre. Salgado. Distante. Forte. Um Deus maior. Quem vê? Quem sabe? O que é? Sem palavras? Sem palavras. Ninguém sabe. Só vendo. Pelo menos assim.&lt;br /&gt;Chamam-lhe tempo. Para chamar. Para saber. Ter a certeza. Murmurar. Para dentro. Ou num grito. Tempo. E nesse instante sabê-lo. Está aqui. Mas está. Sempre. Basta olhá-lo. Não vês? Tão estranho... Ele está aqui. Aqui mesmo. Não vês? Como fazes com os outros? O Tempo está cá há mais tempo. Não vês?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Chama-o.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tempo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ele vem.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Vem logo. Num ápice. Um instante. Vem sempre. Quando. A quem. Onde. Sem porquê. Vem. Só isso. Aparece. Criança. Aos pulos. Ou como lençol ao vento. Andam juntos, não é?&lt;br /&gt;Andam.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Acho que andam.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quem me disse. Não sei. Deve ter visto. Por aí. Na rua. Sem pegas nem braços nem traves nem marcos nem sinais. Sem poder agarrá-lo. Senão com olhos. Com os olhos. Do pensamento.&lt;br /&gt;Tempo.&lt;br /&gt;Ah, estás aí...&lt;br /&gt;Obrigado.&lt;br /&gt;Tempo.&lt;br /&gt;Ah, estás aí...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Chamam-lhe Tempo. Chamam-no. Por vezes muitas. Outras. Nem tanto. Tempo. Tempo. Tempo. Estás aí. Mas se o chamam. Será talvez. Talvez mais. Não para sabê-lo. Mas saber-se. Saberem. Estou aqui. Tinha-me esquecido. Talvez... talvez por isso...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tempo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ah, estou aqui.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Obrigado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;(escrito em 204.09.24)&lt;/span&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/8534442-112479788609814172?l=chamam-se.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://chamam-se.blogspot.com/feeds/112479788609814172/comments/default' title='Post Comments'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=8534442&amp;postID=112479788609814172' title='0 Comments'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8534442/posts/default/112479788609814172'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8534442/posts/default/112479788609814172'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://chamam-se.blogspot.com/2005/08/chamam-o-tempo.html' title='Chamam o Tempo'/><author><name>Ric ;)</name><uri>http://www.blogger.com/profile/14679730585851880195</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='http://4.bp.blogspot.com/-xUFKkHvceDE/ThDtCj9b8oI/AAAAAAAAE80/wNsfg-HpGuI/s220/ric-o-matic.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-8534442.post-112479649970681628</id><published>2005-08-23T04:20:00.000-07:00</published><updated>2005-08-23T04:28:19.716-07:00</updated><title type='text'>Chamavam-lhe “Santos Carlos”</title><content type='html'>Chamavam-lhe... perdão, ele insistia em que o chamassem e tratassem e nomeassem pelo apelido Carlos e nome Santos.&lt;br /&gt;-Santos Carlos!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;É lógico que o inverso estava patenteado no passaporte e carta de condução, bem como na fotocópia do B.I., que o original onde é que já ia ninguém sabia...&lt;br /&gt;Contudo, e ainda que fosse de louvar a sua ideia de se chamar e ser chamado como se uma ficha desportiva se tratasse, "Santos, Carlos", com a decorrente ironia da inversão originar um plural de fé, a verdade é que ele se ria tanto de cada vez que se apresentava pela primeira vez a uma qualquer nova pessoa que, por isso, logo lhe retirava qualquer hipótese de sucesso pela iniciativa, originando imediatamente no receptor da mensagem os graus de 'grande' e 'enorme', o que até nem seria mau de todo, se não estivessem a preceder as categorias de ‘louco’ e 'anormal'.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Santos Carlos, contudo, ignorava a generalidade de todas estas coisas, e logo a seguir à apresentação do seu nome invertido completava:&lt;br /&gt;-Santos Carlos, ex-ascensorista.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Depois, variava, ora colocando o términos do "tcham" que achava impactar nas pessoas com um solene "um prazer" ou um também não menos usual “às suas ordens”.&lt;br /&gt;Daí, várias situações se podiam originar.&lt;br /&gt;Uma das mais frequentes era Santos Carlos debandar em procura de outra alma, mais conhecida e já habituada aos seus devaneios e histórias, e principiar por chatear com a repetição de lenga-lengas sobre marquesas que conhecera no Hotel Tivoli ou no Ritz, que fora ele quem dera o conselho final ao presidente em visita ( e do qual, curiosamente, não sabia o nome nem descrição sequer aproximada) do Four Seasons para se consumar a fusão entre esses dois gigantes, ainda que o topo do Sheraton vira já um homicídio ocultado ou que no quarto do 6º piso (número a não revelar por obrigação e princípio de profissional do meio) se deixara estar 8 horas seguidas em sucessivas partidas de Póker com um grupo de empresários alemães.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Outra situação surgia quando, sabe-se lá porquê, algum dos recentemente apresentados se mostrava impressionado com a personalidade de Carlos Santos. Aí ele não se calava mais. Mediano de estatura esticava-se e parecia ganhar mais 5 centímetros, a barba apenas de dois dias era cofiada à mesma, num gesto sábio e de quem reflecte imenso na vida, os cabelos lisos muito bem penteados para um dos lados alisados ocasionalmente, e a pose de um sábio a fazer semicerrar os olhos nos momentos mais secretos e a iluminá-los durante uma anedota, que, claro, era contada no original alemão/francês/inglês/italiano e com concomitante tradução frase-a-frase para o português, resultando numa galhofa final dele e em simples sorriso delicado ou simpático do ouvinte.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A minha história preferida era nenhuma história em particular, mas as situações gerais que ele contava, sem poder definir alguém em particular, sem poder atirar uma data ao ar ou sequer nomear um dos hotéis em definido; eram as histórias da rotina de ascensorista, essas, as que eu, por mim, ouvia até acabar o copo e estar a cair de sono, tendo entretanto já rido e meditado profundamente. Porque não é de descurar a enorme capacidade deste Santos Carlos para contar histórias. Sobretudo nos dias mais chuvosos, em que ficava fechado por mais de duas ou três horas num café e ninguém tinha grande pachorra ou sequer mesmo interesse em o cumprimentar, como sequer ouvir, aí tornava-se uma presença profunda, de voz cava e rouca e olhar perdido num horizonte de balcões e copos e chávenas, nas ruas apinhadas lá fora, no cimento dos passeios, num pormenor de um casaco de alguma pessoa. Aí, deixava as histórias de ascensorista, sacava de um cigarro já muito melindrado pelas vezes sem conta em que entrara e saíra do maço, e punha-o na boca ao dependuro. Depois começava a falar, quem sabe se para o escutarem ou simplesmente para si mesmo. Ia e vinha, de tom e no tempo, ora a perceber-se claramente o dia em que começara a carregar nos botões, por acaso numa velha pensão de 6 andares numa rua por trás da Grande Praça, ora a perder-se a voz e a coerência quando já estava na velha casa de madeira do pai e quando recordava a chinfrineira que fora quando da partida da irmã mais velha para o Canadá. “Ainda lá estaria, mas viva ou morta, que sabia?...” Eu não, certamente, nem mais ninguém no café, que entre o silêncio que a chuva sempre traz de oferta só abanava um pouco a cabeça, solenemente, soerguendo um pouco as sobrancelhas pela tragédia de algumas coisas que a todos acontecem nas suas vidas, e depois logo esquecendo o episódio da vida de um velho ascensorista, para, individualmente, um a um, ficarem todos a meditar nalguma coisa do seu passado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Creio que, em parte, seria até por isso que muita boa gente já não aguentava ouvir muitas filosofias e velhas memórias de Santos, porque temiam vir a odiá-lo como recuperador de memórias e sofrimentos já há muito recalcados. E sobretudo os donos dos cafés queriam a todo o custo evitar isso, não só porque um café de mágoas era bom para vender bebidas mas não para sempre, só a partir das 2 da madrugada e para meia-dúzia de gatos pingados, mas sobretudo porque eles também tinham as suas histórias, e estar a trabalhar com um constante zumbido na orelha a balouçar e a despertar quezílias e problemas e desilusões, entre outras coisas...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Por vezes era eu quem o afastava, e, finalmente, lá começava ele a contar das histórias gerais, das situações caricatas que sempre aconteciam nos elevadores de “qualquer hotel do país, do mundo e, quiçá, se por esse universo fora houverem estalagens, motéis ou hotéis, de luxo ou mesmo de uma estrela apenas, até aí também muitas destas coisas!”. E lá começava: silêncios comprometedores entre duas ou mais pessoas, confissões de pecados, declarações de amor (e, até, um pedido de casamento), politiquices sujas ditas a meia-voz, reencontros de gente desaparecida, gente perdida à procura do hall com “aquele quadro assim e assado que era o único ponto de referência que tinha como do seu andar certo” e muitas outras.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No fim do dia, ou melhor será dizer pelo princípio da madrugada, Santos Carlos, ex-ascensorista, saía do café mais abatido que um herói sem dever cumprido, e dali todos sabiam que só tinha dois destinos: umas duas ou três casas de mulheres que do seu tempo de hotel sempre recomendava a alguns turistas, e de onde retirava depois uma comissãozita, para além de algumas “carícias” e calor humano de graça; ou então a sua velha casa, um apartamento bem no centro desabitado da cidade, perto de todos os maiores hotéis, onde, um dia ou outro, lá voltava, para dar umas dicas aos rapazes das malas e falar com os novos e desconhecidos tal como com os velhos conhecidos recepcionistas, dizer que agora quase nenhum hotel tinha um tipo decente aos comandos do elevador ou sequer alguém presente, havendo até a ideia já avançada do comando ser feito via uma central ou, ainda pior, por computador! – modernices... aliás,  uma completa vergonha, deixarem os clientes abandonados ao seu destino!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quando as manhãs já acenavam os raios, Santos saía então pela rua e entrava desgraçadamente em casa, exausto.&lt;br /&gt;Mulher?&lt;br /&gt;Filhos?&lt;br /&gt;Família de qualquer espécie?&lt;br /&gt;Um silêncio apenas de todos os que o conhecem.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O pai, bruto, vai-se escutando aqui e ali nalgum delírio de copos. Da irmã só se sabe que foi e não veio do Canadá. E do resto uma mudez parece habitar este homem de andar cansado e que teve uma vida como nenhum outro ser humano, tão para cima como para baixo, ou como diria o próprio em tom sarcástico, “como os meus elevadores, cheio de altos e baixos”. Quem sabe, dizem uns, não terá sido tal inconstância que o terá conduzido à perdição!? Deveria o Estado avaliar a profissão e assistir com um subsídio especial?... Deveria jamais ser permitido trabalhar em tal habitáculo por mais de 5 anos?... ... ...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Do que se conhece ao certo de Santos Carlos vem de há apenas 2 anos, altura em que começou a aparecer pelos mesmos locais que eu e outros frequentamos, sem que alguém ainda conheça ou tenha perspectivas de vir a descobrir uma alma que nos possa elucidar e fazer a sua ligação ao passado que só ele conta.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Inevitavelmente, um dia haverá de carregar pela última vez no botão para fechar a porta, pressionar a ida sem volta para o último andar e premir a saída quem sabe angelical, quem sabe de penitência... Como ele lembra, “até a roupa suja se lava nas caves abaixo da terra”.&lt;br /&gt;Inevitavelmente, um dia haverá de chegar que o café deixará de o ter como personagem assídua e personalidade ora em cima das mesas com um copo de cerveja ora debaixo das saias das empregadas a limpar as lágrimas e a implorar por uma noite dormida com duas mamas leitosas a servir de almofada.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Inevitavelmente, um dia a memória de todos apagar-se-á dele e ficará apenas uma impressão vaga, porque na nossa vida há coisas que, nos últimos dias e suspiros, iremos recordar por mais importantes que esta, dilemas e tragédias, felicidades e alegrias simples, viagens e conquistas, desilusões e melancolias.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E um dia, inevitavelmente, nada mais restará de Carlos Santos, o ex-ascensorista que vagueava pelas ruas e cafés na esperança, digo eu, de vir a encontrar um que ficasse no 3º andar e tivesse à porta um anúncio de “ascensorista precisa-se”.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Hoje, contudo, tem uma velha francesa carregada de jóias falsas, correntes de um amarelo vivo e quase chocante, lenço de seda de cores berrantes em grande contraste com as cores da camisola e da saia comprida, brincos pesados e grossos e anéis com pedras baças, tem esta visita que o diz conhecer de há alguns anos atrás, quando houvera trabalhado algures num recém-inaugurado hotel em nenhures, que logo fechara e a deixara na rua, como a todos... e dali já mais ninguém escutou, por que era já coisa pessoal e mútua dos dois e, diga-se em boa verdade, a dada altura até terrivelmente aborrecida.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Na televisão, contudo, o jogo animava-se com a expulsão do defesa, e a filha do Vasco dono do café acabava de inventar nova profissão urbana: operadora de telecomando; e já primava pela técnica rápida e inteligência, baixando o som durante o jogo para que não se fizesse barulho com as vozes três tons acima, levantando quando havia uma jogada discutível e baixando quando era imperioso que se deixassem as pessoas discutir as coisas, terminando em apoteose com o volume a mais de meio logo após o êxtase de um golo, onde todos berravam de qualquer maneira e se cumprimentavam entre da mesma equipa.&lt;br /&gt;...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Inevitavelmente, um dia...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;(escrito em 2001.12.16)&lt;/span&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/8534442-112479649970681628?l=chamam-se.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://chamam-se.blogspot.com/feeds/112479649970681628/comments/default' title='Post Comments'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=8534442&amp;postID=112479649970681628' title='0 Comments'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8534442/posts/default/112479649970681628'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8534442/posts/default/112479649970681628'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://chamam-se.blogspot.com/2005/08/chamavam-lhe-santos-carlos.html' title='Chamavam-lhe “Santos Carlos”'/><author><name>Ric ;)</name><uri>http://www.blogger.com/profile/14679730585851880195</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='http://4.bp.blogspot.com/-xUFKkHvceDE/ThDtCj9b8oI/AAAAAAAAE80/wNsfg-HpGuI/s220/ric-o-matic.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-8534442.post-112419536582698762</id><published>2005-08-16T05:27:00.000-07:00</published><updated>2005-08-16T05:29:25.830-07:00</updated><title type='text'>Chamam-lhe Roberto</title><content type='html'>Roberto. E Roberto vem. Traz um banco de madeira. E. Uma almofada. Encapada. A lona preta. E. Um lenço branco. A assoar de vez. Em quando. Em vez. A sacudir trapos. Varrer o chão. Com o sapato. A sola. A sacudir a garganta. A traqueia. O escarro. Abrir a lata. A remexer na pasta. Um dedo de conversa. Basta uma. Uma pergunta. Diga lá... Já está. Roberto não diz. Nada. Só esfrega e puxa. O lustro. A conversa. A paciência. Um lenço. Na testa. Sobre o suor. E escuta. Escuta. Nem que sejam apenas as folhas. Amarelas. Viradas. Jornal de ontem. Não reparou? Desculpe. Não pude ainda... Foi um outro... Esqueceram... São dois euros. A bota. Não é muito. Melhor não encontra. Deixe estar. Eu limpo. Não gosta? Aqui não entra. Nem uma gota. Vá por mim. Roberto. Toda a gente conhece. O Roberto. Graxista não. Engraxador. Até mulheres. Muitas. Doutoras. Sabe quanto custa hoje um par? Claro que sabe... Que pergunta. Eu não sei. Não compro. Dão-mos. Estes pediam. Eram de um deles. Um pedinte. Olhe. Vê? Digo-lhe isto. De um pedinte. Fazia mais que você. Talvez não. Você não. Mas que muita gente. Fazia. Mais. Digo-lhe mais. De uma vez deu-me dois. Dois pares. Dois para mim. Para pagar. Trouxe-me uma saca com mais. Para ele. Quase novos. Para estragar. Veja! Eu! Roberto da escova! A estragar sapatos. Mas faz-se. Tudo. Faz-se. É uma arte. Não parece. Desculpe falar assim tanto. É hoje. Não sei que deu. Diga. Diga. Foi um saco. É verdade. Para estragar. Deu-se um jeito. Faz-se tudo. Ficaram como queria. Velhos. Por dentro não. Por fora. Nada. Só remendos. Bonitos por dentro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;É... É isso. Todos os dias. Vai-se... Sabe que... Pois... é isso, é isso... Tem razão. Não joga nada. Esse também. Não manda. Ora no tempo!... Digo-lhe isto: ...não acha?Roberto!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sente-se.&lt;br /&gt;Roberto. Escova na mão. Na mesma rua. A engraxar vontades. Polir desejos. Vaidades. Medos. O lustro nos egos. Notícias. Más-línguas. Boas novas. Mentiras. Tretas. A graxa tapa. Tudo.&lt;br /&gt;Ora isso agora...&lt;br /&gt;Faça então três euros. Tiro-lhe meio.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Roberto é assim. Mais um. Tipo. Da rua. Sentado. Agarrado. Aos trapos. À escova. Aos pés. Curvado. És assim. No passeio. Sob o toldo. A fiar o pêlo. Os beiços. Puídos. Sobrepintados. As unhas. Pretas. E as gretas. Escondidas. Sob camadas. Várias camadas. Muitas camadas. Sobre camadas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Um tacto rude. Áspero.&lt;br /&gt;O pé esmagado. Os dedos. Num vai. Num vem. E vai. De novo. E vem...&lt;br /&gt;Digo-lhe isto: não é chato.&lt;br /&gt;Para fazer bem. Tem de ser assim. Fazer sempre. Todos os dias. Sempre. Fazer o mesmo. Assim é que fica bom. Vê? Perfeito. É isto. Todos os dias. Olhe!&lt;br /&gt;Deixe-me usar castanho. Confia?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Digo-lhe isto: ou mudam. Ou mudamo-nos. Ou mudam-nos. Foi tal qual. Um doutor. No outro dia. Fiquei a pensar. Faz sentido. Pense. Vai ver que. Pense.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Digo-lhe isto: quando morrer, cobrem-me. De graxa. É o meu fato. Lá em baixo não há frio.&lt;br /&gt;Digo-lhe: quando acabar a graxa. Acabo. E que acabe. Vai ver. Todos. Toda a gente. A cuspir em si. Não em si. Em você. Em si. Em si mesmo. Todos. A cuspir-se. Passar lustro na calça. Nas meias. Vou gostar. Vai ver. Para ser diferente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Digo-lhe: não é a toa que me chamam Roberto.&lt;br /&gt;Olhe. Quando quiser. Estou por aqui. A engraxar sapatos. É só o que faço. Não era bom? Assim? Todos? A fazermos só isso? Uma coisa?&lt;br /&gt;Digo-lhe: era um outro mundo.&lt;br /&gt;Quando quiser. Passe aqui. Pergunte ao Roberto. É assim que todos. Roberto. Me chamam. Roberto.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;(escrito em 2004.09.29)&lt;/span&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/8534442-112419536582698762?l=chamam-se.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://chamam-se.blogspot.com/feeds/112419536582698762/comments/default' title='Post Comments'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=8534442&amp;postID=112419536582698762' title='0 Comments'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8534442/posts/default/112419536582698762'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8534442/posts/default/112419536582698762'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://chamam-se.blogspot.com/2005/08/chamam-lhe-roberto.html' title='Chamam-lhe Roberto'/><author><name>Ric ;)</name><uri>http://www.blogger.com/profile/14679730585851880195</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='http://4.bp.blogspot.com/-xUFKkHvceDE/ThDtCj9b8oI/AAAAAAAAE80/wNsfg-HpGuI/s220/ric-o-matic.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-8534442.post-112419488953277266</id><published>2005-08-16T05:20:00.000-07:00</published><updated>2005-08-16T05:21:29.536-07:00</updated><title type='text'>Chamam-lhe “fotógrafo”</title><content type='html'>cigarrilha na boca&lt;br /&gt;máquina ao peito&lt;br /&gt;um jeito curvado&lt;br /&gt;este e aquele e ainda outro meio feito&lt;br /&gt;mais soberbo&lt;br /&gt;ou mais esquecido&lt;br /&gt;ou até sem jeito&lt;br /&gt;enquanto nas unhas&lt;br /&gt;amareladas&lt;br /&gt;e roídas&lt;br /&gt;um novo concerto&lt;br /&gt;de cliques e tiques&lt;br /&gt;e retiques&lt;br /&gt;e zooms&lt;br /&gt;e esperas&lt;br /&gt;e conversas com quem por ali vagueia na mesma mala de viagens feita de histórias alheias&lt;br /&gt;a sair em fotografias a preto e branco das varinas&lt;br /&gt;dos comícios&lt;br /&gt;dos conflitos&lt;br /&gt;dos desalojados&lt;br /&gt;dos políticos&lt;br /&gt;e dos magros, podres e outros afins assuntos&lt;br /&gt;enquanto&lt;br /&gt;ao fim-de-semana&lt;br /&gt;ou nos outros dias fixos&lt;br /&gt;as cores dos casamentos&lt;br /&gt;e os bailes dos filhos&lt;br /&gt;e os copos dos netos&lt;br /&gt;e dos primos&lt;br /&gt;e dos príncipes&lt;br /&gt;e dos amigos&lt;br /&gt;e de outros parecidos&lt;br /&gt;a dar o rosto ao manifesto&lt;br /&gt;e a lucrar com isso&lt;br /&gt;enquanto o tipo que tem o telefone sempre ligado lá vai de novo uns quantos quilómetros&lt;br /&gt;para uma foto-passe&lt;br /&gt;para uma capa&lt;br /&gt;um catálogo&lt;br /&gt;um choro convulso a encher três páginas&lt;br /&gt;um beijo apanhado ao longe com entrada directa no pontilhismo&lt;br /&gt;e arte na fuga&lt;br /&gt;de uns quantos&lt;br /&gt;ou de um apenas&lt;br /&gt;ou de nada&lt;br /&gt;que não seja rotina&lt;br /&gt;a limpar lentes sujas de pó e cuspo&lt;br /&gt;a vestir roupas largas e a usar mochilas&lt;br /&gt;a calçar prendas&lt;br /&gt;a esfregar a barba&lt;br /&gt;a explicar as histórias verdadeiras a meio com as fantasias&lt;br /&gt;a perder noites&lt;br /&gt;a verter copos depois&lt;br /&gt;a provar jantares&lt;br /&gt;acepipes&lt;br /&gt;boatos&lt;br /&gt;vinhos brancos&lt;br /&gt;e a meter tudo no saco com prazo curto,&lt;br /&gt;a esperar&lt;br /&gt;mas pouco&lt;br /&gt;sob o sumo dos acontecimentos&lt;br /&gt;sem cessar&lt;br /&gt;do mesmo fruto&lt;br /&gt;para os milhares que aí se vão precavendo das viroses do Inverno&lt;br /&gt;das depressões da Primavera&lt;br /&gt;dos sonhos de Verão&lt;br /&gt;das surpresas de Outono&lt;br /&gt;sobre grelhas feitas à pressa&lt;br /&gt;e com novos rostos, novos nomes, novas formas&lt;br /&gt;que já se sabe&lt;br /&gt;entre quem sabe&lt;br /&gt;por onde andaram a fazer subir&lt;br /&gt;as suas ideias&lt;br /&gt;vertigens&lt;br /&gt;prazeres&lt;br /&gt;poderes&lt;br /&gt;e outras coisas que lá vão trazendo dividendos&lt;br /&gt;por entre negócio&lt;br /&gt;e ócio&lt;br /&gt;e prazer,&lt;br /&gt;até&lt;br /&gt;um dia simples&lt;br /&gt;o telefone tocar para um pedido singular&lt;br /&gt;de presença obrigatória&lt;br /&gt;desta vez tão diferente&lt;br /&gt;a pedir-se na voz trémula para repetir&lt;br /&gt;para confirmar&lt;br /&gt;depois do urro interno&lt;br /&gt;do rubor na face&lt;br /&gt;do orgulho de humano solitário após mil maratonas sob chuva e sal e sol no deserto,&lt;br /&gt;do tempo de espera recompensado&lt;br /&gt;agora&lt;br /&gt;finalmente&lt;br /&gt;não para fotografar&lt;br /&gt;mas ser fotografado&lt;br /&gt;no altar&lt;br /&gt;pelos colegas&lt;br /&gt;todos eles&lt;br /&gt;enquanto se lá chega pelo próprio pé e corpo coberto de fato&lt;br /&gt;um sorriso contido&lt;br /&gt;nervoso&lt;br /&gt;as mãos a soerguerem apenas uns centímetros&lt;br /&gt;a distinção&lt;br /&gt;não de aço coberto de ouro&lt;br /&gt;mas de plástico&lt;br /&gt;ora preto&lt;br /&gt;ora cinzento&lt;br /&gt;com retoques de design moderno&lt;br /&gt;e preço alto&lt;br /&gt;ao alto&lt;br /&gt;apontada ao centro&lt;br /&gt;sempre&lt;br /&gt;antes e agora&lt;br /&gt;e depois&lt;br /&gt;sempre&lt;br /&gt;sempre&lt;br /&gt;sempre...&lt;br /&gt;...entre uma cigarrilha na boca&lt;br /&gt;um dedo de conversa&lt;br /&gt;um dia inteiro fechado num canto&lt;br /&gt;numa árvore&lt;br /&gt;num esgoto&lt;br /&gt;num carro&lt;br /&gt;a mijar em garrafas de plástico&lt;br /&gt;para depois&lt;br /&gt;amanhã&lt;br /&gt;às vezes nem isso&lt;br /&gt;ir cobrir passadeiras vermelhas&lt;br /&gt;visitar salas de hotel&lt;br /&gt;morar por aí&lt;br /&gt;conhecer tudo e todos&lt;br /&gt;e no fim&lt;br /&gt;na carteira&lt;br /&gt;no álbum&lt;br /&gt;na memória&lt;br /&gt;apenas uma imagem própria feita de contornos difusos e desmaiadas cores&lt;br /&gt;...como é que eu era mesmo?&lt;br /&gt;ah, sim,&lt;br /&gt;apenas isso,&lt;br /&gt;documentalista&lt;br /&gt;retratista&lt;br /&gt;artista&lt;br /&gt;mágico&lt;br /&gt;mentiroso&lt;br /&gt;verdadeiro&lt;br /&gt;intruso&lt;br /&gt;fiel&lt;br /&gt;confidente&lt;br /&gt;simpático&lt;br /&gt;maldito&lt;br /&gt;e mais isto&lt;br /&gt;e mais aquilo&lt;br /&gt;mas no fundo&lt;br /&gt;tão simplesmente&lt;br /&gt;fotógrafo&lt;br /&gt;homem de passeios&lt;br /&gt;olhares atentos&lt;br /&gt;enquadramentos&lt;br /&gt;jogo rápido&lt;br /&gt;amigos poucos&lt;br /&gt;mil cuidados&lt;br /&gt;e muito sono&lt;br /&gt;só isso&lt;br /&gt;fotógrafo&lt;br /&gt;quem tu vês por trás de algo que te olha&lt;br /&gt;quem tu nunca vês&lt;br /&gt;quem tu sempre procuras ver por inteiro&lt;br /&gt;mas não consegues&lt;br /&gt;como a estrela que aguardas retire os óculos escuros&lt;br /&gt;quem tu só vês pelo que ele vê&lt;br /&gt;o fotógrafo&lt;br /&gt;assim&lt;br /&gt;quase sempre&lt;br /&gt;para ti&lt;br /&gt;para quase todos&lt;br /&gt;talvez até para ele mesmo&lt;br /&gt;a fazer ver como ele viu,&lt;br /&gt;ele que viu o mundo tão de longe e tão de perto&lt;br /&gt;fotógrafo disto e daquilo&lt;br /&gt;um nome na praça&lt;br /&gt;nos jornais e revistas&lt;br /&gt;nas galerias&lt;br /&gt;nos livros pesados&lt;br /&gt;nas enciclopédias&lt;br /&gt;em letras muito pequeninas por baixo&lt;br /&gt;em memórias que se vão desfazendo&lt;br /&gt;até ficar&lt;br /&gt;apenas&lt;br /&gt;no papel&lt;br /&gt;o seu melhor trabalho&lt;br /&gt;nada mais&lt;br /&gt;nada&lt;br /&gt;só isso&lt;br /&gt;apenas isso&lt;br /&gt;ou&lt;br /&gt;quem sabe&lt;br /&gt;com sorte&lt;br /&gt;esse e mais um outro&lt;br /&gt;dois ou três para os mais afortunados&lt;br /&gt;mas no tempo&lt;br /&gt;é isso&lt;br /&gt;essa fotografia&lt;br /&gt;que permanece e que fica&lt;br /&gt;vai ficando&lt;br /&gt;uma palavra muda que se repete e expande cá dentro,&lt;br /&gt;e talvez seja&lt;br /&gt;então&lt;br /&gt;por essa razão&lt;br /&gt;que toda a vida sustém a rotina do muito,&lt;br /&gt;por esse singular centésimo de segundo,&lt;br /&gt;senão para todos&lt;br /&gt;pelo menos para alguns...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;e a verdade&lt;br /&gt;então&lt;br /&gt;talvez deambule por aí&lt;br /&gt;nessa frase&lt;br /&gt;de quem disse que um fotógrafo é aquele que apenas sabe procurar a vida inteira fazer&lt;br /&gt;um livro só com uma palavra.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;(escrito em 2004.09.10)&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/8534442-112419488953277266?l=chamam-se.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://chamam-se.blogspot.com/feeds/112419488953277266/comments/default' title='Post Comments'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=8534442&amp;postID=112419488953277266' title='0 Comments'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8534442/posts/default/112419488953277266'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8534442/posts/default/112419488953277266'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://chamam-se.blogspot.com/2005/08/chamam-lhe-fotgrafo.html' title='Chamam-lhe “fotógrafo”'/><author><name>Ric ;)</name><uri>http://www.blogger.com/profile/14679730585851880195</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' 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Porta-chaves.&lt;br /&gt;Pela mão. Um dia. Um cão. Hoje um simples porta-chaves. Frio. Polido. Entre os dedos. Grossos. Mais grossos do que eram. Na mão cheia. Não há pouco tempo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Há quem diga. Por aí. Que se chamava Maria. Maria. Um nome ausente. Já de si ausente. Neutro. Quase vazio. Maria era assim. Gente. Como tanta gente. Só mais uma. A sair às horas. Parecidas. Matinais. Tardias. Horas tolas. Importantes. Macias. Duras. Obrigatórias horas. Minutos a disfarçarem o tempo igual.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Passeava. Pelo parque. Um jardim. Verde. Escasso. Torto. De relva entornada aos dias. Passeava a passos corridos. A fugir de um cão. Russo. Russo de nome. Pêlo preto. Corpo agigantado. A fugir e a gritar. Russo! Russo! Russo! Via-se e ouvia-se. Também. A rir. Não raras vezes a rir. Russo pela trela. Solto na relva. Comprida. Assim à tarde. Às horas tardias. Do dia. Do final de dia. Claro, o final de dia... O sol a baixar. No passeio uma carripana. Branca. Partida. A estacionar. Um toque atrás. Outro à frente. Uma multidão de putos. No passeio. Mochilas às costas. O etecetera. Mais isto e aquilo. Passageiro. Tudo. Tudo passageiro. Como tudo. E ali no meio. No parque. Maria. A porta-chaves. Não então. Mas agora. Nessa altura apenas Maria. Maria &amp; Russo. Entre corridas. Apanhada. Maria vencida. Por Russo. Por outros? Russo na peugada. Maria corrida. O cão grande e preto de pêlo curto. A relva. Longa. Comprida. Farta. Verde. Muito verde. E Maria. Sobre a relva. Russo vem cá. Russo corre. E Russo corria. Aos olhos de Maria. E outros.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Maria apertava. A trela. As ideias. Algumas músicas. Sonhos. O porta-chaves. No bolso. Nas mãos cheias. Um sorriso. Solto. Russo roçava. Nas pernas. Refugia. Maria olhava. Perdia. Nas horas. No tempo. Pensamentos. Mais pensamentos. De uma casa? Um carro? Amigos. Jantares. Um romance. Fotografias. Um beijo. Um amante. Um homem? Um homem. O homem. E ali à volta. Tantos. Aos volantes. A pé. De fato. Com as crianças. De pasta. Sacos das compras. Bigode. Cabeça rapada. Novos. Jovens. Adolescentes. Bancários. Velhos. Reformados. Negociantes. Perdidos. Emigrantes. Desconhecidos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E Russo corre.&lt;br /&gt;Maria corre.&lt;br /&gt;Um tipo. Um dia. Quem sabe.&lt;br /&gt;Russo! Vem cá!&lt;br /&gt;E ali perto. Na relva. Um tipo. A olhar. Não é a primeira vez. Houve outras.&lt;br /&gt;Maria olha. Faz que não. Vê. Atira e corre. Com Russo. À frente. Atrás. Passa as mãos. Pelo pêlo. Pela baba. Olhos. Nos olhos. De quem vê. De quem passa. Perto. Um homem casado? Solteiro. Quem sabe... Hoje. Um dia qualquer. Um dia. Hoje? Um dia qualquer. Um dia. Um dia. Quando vier. Um dia. De cada vez. Podia ser este. Este dia. Este homem. Ou outro. Outro qualquer. Como o que se vê. A cada hora. Nos sonhos. Nas ideias. De revista. De memória. De conversa. De cinema. De letras. Músicas. Poemas. Rascunhos nas portas. Blocos de notas. Atrás de uma lista de supermercado...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Desejos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Maria olha. Mais uma vez. Faz que. Mas olha. Outra vez. Russo! E olha. E o tipo olha. Faz que. Mas olha. Corre. Atrás. A passo. E pára. Assoa. Limpa. Tosse. Quem sabe. Sonha? Também? Maria corre. Atrás. Russo! Russo não pára. Corre. Corre. Corre.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Boa-tarde.&lt;br /&gt;Bom-dia.&lt;br /&gt;Olá.&lt;br /&gt;Está sempre aqui...&lt;br /&gt;Palavras. Muitas. Parecem sempre. Muitas. Quem as recorda? A todas? As primeiras? As primeiras mesmo. Aquelas. Essas. A rasgar. Tesouras. Bombas. Mísseis. Atacantes. Defensivas. Assustadas. Medrosas. Brutais. Toma. Aqui vai. Esta. Outra. Aquela. Agora esta... Sem saber. Sem dar por elas.&lt;br /&gt;Os olhos ficam.&lt;br /&gt;Olhos. Castanhos. Ambos. Cabelos. Pele. Sardas. Lábios. Grossos. Finos.&lt;br /&gt;Mas os olhos. Esses. Ficam.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quem fala? Quem sabe... Ouve-se. Mas os olhos. Esses. É que falam. Nada importam as bocas. E ele fala. Que diz? Ouviste bem, Maria? Um sorriso. Um convite. O sol põe-se. Vem a noite. Tens um convite. Um jantar. Russo! Vem cá! Sorrisos. Tremores. Por dentro. Por fora. Nas pernas. Joelhos. Dentes brancos. Nervosos. A sorrir. Uma paz. Convulsa. Festiva. Repressão à força. Um aceno. Cabelo atrás da orelha. Troca de números. Russo! Vem aqui!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E aqui vem. Mais um dia. Outro. Mais. Outro. E outro. Ainda. Outro.&lt;br /&gt;Um jantar.&lt;br /&gt;Cinema.&lt;br /&gt;Esplanadas.&lt;br /&gt;Um café.&lt;br /&gt;Uma fotografia.&lt;br /&gt;Uma história.&lt;br /&gt;Outra.&lt;br /&gt;Outra ainda.&lt;br /&gt;O passar do tempo.&lt;br /&gt;O silêncio.&lt;br /&gt;De volta.&lt;br /&gt;Um dia.&lt;br /&gt;Outro.&lt;br /&gt;Teatro.&lt;br /&gt;Farsa.&lt;br /&gt;Um passeio.&lt;br /&gt;De carro. Um belo carro. Comprido. De cor forte. Vermelho. A desviar. Por entre. Rápido. Esquivo. Fugaz. Brilhante. Viçoso.&lt;br /&gt;E o mar...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ambos. Parados. Sentados. No carro. Vermelho. Os dias atrás. A memória cheia. Conversas. Histórias. Partilha. Uma mão. Pele. Na pele. Com pele. Macia. Lisa. Um aperto. Dentro. Bem dentro. Bem cá dentro. No centro. Quente. Pulsante. Mais quente. E os olhos. Nos olhos. O mar ao longe. Os olhos perto. Saliva extinta. O chão. Fugidio. Num beijo. Seco. Curto. Lábios colados. E os rostos. Inertes. A recuperar. Tontos. Um sorriso. A felicidade. Um instante. Acreditas? Que é para sempre? É para sempre. É sempre. É sempre para sempre. Sempre. Como nunca. Ambos para sempre.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A relva seca. O sol. Alto. Bruto. Longo. Distante. Não foge. Fica. Forte. A cuspir. Raios. Coriscos. O campo evade-se. De gente. De cães. De pássaros. Só lixo. Folhas. Papéis por assinar. Até que o vento. E a sombra. Longos. A tarde. E Russo. E Maria. E o tipo. Na corrida. Curta. O abraço. Vai Russo! Vai!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Jantar. Cinema. Esplanadas. Café. Fotografias. Histórias. O passar do tempo. Silêncio. Um dia. Outro. Teatro. Leitura. Jardins. Hotéis. Pousada. Praia. A cama. A teia. As ligas. As rendas. Fantasias. Prazeres. Farsa. Passeios. Gelados. Restaurantes. Tascas. Copos. Noitadas. Viagens. De carro. Um belo carro. Vermelho. A desviar por entre. E mais horas. E dias. Telefone. Rápido. Medo? Uma espera. Outra. Outra ainda. Outra?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A tarde chega. A sombra parte. A relva. Escura. A noite. Negra.&lt;br /&gt;Russo. Vem.&lt;br /&gt;Em casa. A campainha. O elevador. A porta aberta. Uma história. E mais outra. Outra? Outra... Outra vez? Não. Só outra. A lágrima.&lt;br /&gt;Russo, sai...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A sala. As velas. A colcha. Revistas. Mesa torta. TV ausente. Rosto. Rostos. Nos rostos. Rubros. Húmidos. Desculpas. Justificações. E um pedido. Um desejo? Vem viver comigo. Só assim. Tem de ser. Assim. Só assim. Assim consigo. Só assim...&lt;br /&gt;Russo, rua.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E Russo vai. Maria também. À tarde. Seguinte. Pensativa. Quente. Lágrima fixa. Que fazer? Um homem. O homem. Uma casa nova. Os dois. Só ela. E ele. E a casa. Com quarto. Cama larga. Uma sala. A dois. Uma cozinha. Para os dois. Dois pratos. Dois copos. Duas cadeiras puxadas. Duas almofadas. Duas toalhas. Duas escovas. Duas marcas. A mesma ideia. O mesmo problema. Russo! Russo! Russo! Vai! Corre! Vai! E Russo vai. Corre. Passeia. Fareja. Isto e aquilo. Quase tudo. Quase. Quase tudo. Corre de volta. A trela. Presa. De novo. Ambos de volta.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Maria liga. Telefona. Espera. Aguarda. Angustia. De novo. Tenta. Outra. Outra vez. Pousa. Olha. A casa. As contas. A renda. A vida. O chão. Tijoleira. Paredes claras. Sujas. Russo. Na sala. Ali. Perto. À espera. De nada. E Maria tenta. De novo. Abafa o estômago. A voz responde. Maria fala. Sem forças. Acede. Que sim. Que sim. Os dois. Só os dois. Eu e tu. Nós. Os dois. O Russo... Sai. Hei-de ver. Vou ver. Tenho de ver. Ouve. Escuta. Promete. Enleva. Macia. Mais isto. Aquilo. Um dia. Verás. Um dia. Verás. Todos os dias. Todos. Os dois. Juntos. Bom. Será bom. Muito bom. Tremendamente bom. Como todos. Sim. Como todos. Como os outros. Que passam. Cruzam. Na rua. No parque. Ao volante. A pé. De fato. Com as crianças. De pasta. Sacos das compras. Bigode. Cabeça rapada. Novos. Jovens. Adolescentes. Bancários. Velhos. Reformados. Negociantes. Perdidos. Emigrantes. Desconhecidos. Promessas. Eventos. Quem sabe...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Um dia.&lt;br /&gt;Outro.&lt;br /&gt;Dia.&lt;br /&gt;Tarde.&lt;br /&gt;Noite.&lt;br /&gt;Escura. Lua ausente. Terra fria. E Russo na carpete. De cores. Roídas. Gastas. Velhas. Fios fracos. Farrapos. Uma bola. Ao pé. Massacrada. Buracos. Caretas. Uma máscara. É uma máscara. Uma personagem. Uma visita. Uma gargalhada. Uma tragédia. Três olhos? Uma besta? Uma escultura. Rupestre. Bolestre. Canina. Faminta. Saliva em cascata. E Maria olha. Sorridente. Afaga. Balbucia. Olha. Nos olhos. Olhos nos olhos. Sobrancelhas erguidas. Pesar tardio. E talvez não. Quem sabe... Agora? Não. Não pode. Já não se pode. Não dá. Amanhã vê-se. Amanhã vejo. Onde ficas. Com quem ficas. Tenho de ver. Amanhã. De amanhã não passa. Só eu. Passo. Passo-te. Eu... Não dá. Não posso. Não posso. Não consigo. Não posso. Nunca. Sempre. O mesmo. Não quero.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Um ring.&lt;br /&gt;Dois.&lt;br /&gt;A voz. A mesma. Do corpo. Daquele corpo. Daquele carro. Fugidio. Esquivo. Forte. Vermelho. Comprido. Um soluço. Um pedido. Os três. Só os três. Juntos. Silêncio. Insisto. Os três. Silêncio. Insisto de novo. E tu? Que dizes. Silêncio. Suspiro. Não dá. Não pode ser. A escolha é tua. Não dá...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O dia nasce. A tarde cresce. A relva finda. A máquina limpa. Outra que vem e aspira. A carrinha parte. A luz fraca lambe. A erva. A relva. A terra. Um malmequer. Uma caneca partida. Descoberta. E um poio. E uma prece. Numa bola. De papel. Quadriculado. Aprisionada. Riscada. De lado. Junto ao furo. Perdeu-se? Arrependeu-se? Mais um soluço. Russo! Corre! Vai lá! Corre! Corre, Russo! Deixa... A bola salta. A máscara. Oval. Massacrada. De novo. Irrequieta. Viril. Possante. Vibrante. Sem relva longa. Sem travessas. Sem barreiras. A brilhar. Na pouca luz. A descer. Veloz. E Russo atrás. Maria ao longe. Distante. Desatenta. Russo a descer. Maria a ver. Agora. Só agora. Agora. Só. A bola. Alta. A embater. Rebater. Ultrapassar. Por entre. Por cima. Por baixo. E Russo. A correr. Mais perto. Mais alto. Por entre. Por cima. Por baixo. A estrada perto. Já perto. Maria ao longe. Russo mais perto. A bola tosca. A parar. Devagar. Oval. Avanço curto. Avanço maior. Pelo passeio. Cimento. Torto. Aberto e tapado. Vezes sem conta. Irregular. Mais um centímetro. Russo mais perto. A bola a parar. Maria. De longe. A correr. Atrás. De Russo. Pêlo preto. Curto. Patas fortes. A parar. Focinho comprido. Boca aberta. Caninos brilhantes. Saliva a escorrer. Bola à frente. A descer. A guia. O passeio. Uma sarjeta. Por cima. O alcatrão. A terra encostada. Um metro só. Apenas isso. Um metro. E Russo atrás. Da bola. A morder. A mordê-la. Maria ao longe. A gritar. Russo aqui! Russo aqui! Volta! E nisto um carro. Veloz. Vermelho. Sem bem se ver. A bater. De frente. Em Russo. A bola a rolar. De novo. Maria. Ao longe. Em silêncio.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A estrada negra. Manchada. De negro. De óleo. De sangue. Vermelho. Uma tontura. Um grito. Um susto. Um desalento. Um tanque cheio. Um dilúvio seco. Nada a sair. Sem sair. Sem conseguir sair. As pernas. Fracas. Passo a passo. Sem crer. Tudo assim. Sem crer. Sempre. Como nunca.&lt;br /&gt;A trela na mão.&lt;br /&gt;As chaves na outra.&lt;br /&gt;A noite a cair baixinho sem um só pio que diga alguma coisa ou um conforto de um corpo forte a segurar outro corpo entre as chamas pretas de uma perda igual a outras e tantas outras todos os dias iguais a outros e tantos outros...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Um dia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Outro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mais um. Mais um dia. Mais um. Mais um dia. Mais um. Mais um dia. Um dia. Um dia. Um dia. Um dia. Um dia. O mesmo. O mesmo dia. Dia. Dia. Dia. O mesmo dia. Mais um. Mais um. Mais um. Mais u...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sol. Tarde. Chuva. Noite. Lua. Sossego. Janelas. Lâmpadas. Acesas. Gargalhadas. Por cima. No andar de cima. Do lado. Uma criança que chora. A noite lá fora. TV’s acesas. Camas rangidas. Um edredão de penas. Sem uma. Sem mais uma. Mais uma. Sem uma. Menos uma. Menos uma. Menos uma. Menos uma.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quem é aquela?&lt;br /&gt;&lt;a name="OLE_LINK2"&gt;&lt;/a&gt;&lt;a name="OLE_LINK1"&gt;Chamam-lhe Maria. A porta-chaves. Ia casar. Viver com outro. Ficou sozinha. &lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quem é aquela?&lt;br /&gt;Aquela ali?&lt;br /&gt;Aquela. Na relva.&lt;br /&gt;Chamam-lhe a porta-chaves. Trazia trela. Um cão. Até marido. Um dia não sei. Ficou sem nada. Vem para aqui. Assim. Só a pé. Sozinha. A mexer nas chaves. Entre os dedos. Grossos. Mais grossos do que eram. Na mão cheia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quem é aquela?&lt;br /&gt;Quem é você?&lt;br /&gt;Sou novo. Por aqui. Cheguei agora. Há dias.&lt;br /&gt;Aquela já é velha. Chama-se Maria.&lt;br /&gt;Maria?&lt;br /&gt;Ou Porta-Chaves.&lt;br /&gt;Porquê?&lt;br /&gt;Morreu-lhe o cão. Com quem vivia.&lt;br /&gt;Anda triste...&lt;br /&gt;Pudera. Era o cão dela.&lt;br /&gt;Como era?&lt;br /&gt;Quem?&lt;br /&gt;O cão. Dela.&lt;br /&gt;Era grande. Um grande cão. Grande e preto.&lt;br /&gt;E agora?&lt;br /&gt;Agora o quê?&lt;br /&gt;Com quem anda?&lt;br /&gt;Não vê!? Anda sozinha. Sempre. Assim. Com aquelas chaves. Nas mãos. Mais nada.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Um passo à frente. Outro ainda. Na mão a trela. A mão firme. Masculina. Pêlos nas costas. Da mão. Larga. Mão que assina. Mão que escreve. Mão que pensa. Mão que chora. Ri. Amargura. Aguarda. Avança. Hesita. Risca. Rasga. Rompe. Ruge. Reza. Prega. Recomeça. Mas mais. Muito mais. Mais que isso. Crê. Puxa. Puxa para si. Kassy. Anda! Anda, Kassy. Vamos ali. Vamos.&lt;br /&gt;A relva comprida. Os passos fofos. O som. Sem som. O passo. Sem eco. Só marca. E ele assim. Passo a passo. Mais um passo. Para Maria. A Porta-Chaves. Que teve. Isto. E aquilo. Um dia. E não teve nada. Ou quase. Teve. E não teve. Maria assim. Ou Menos. À espera. Quem sabe. E daí. Quem sabe...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Kassy, senta. Boa-tarde. Olá... Está sempre aqui?&lt;br /&gt;E Maria sorri. Olha-o. Olha. Roda as chaves. No porta-chaves. Pára. Mexe o pé. Não responde. Diz. Nada. Mete as mãos. E as chaves. Nos bolsos. Parada. E fica. Ali. Ali fica. E ele insiste. Mas Maria. Assim. Como é. Agora. Diz. Nada.&lt;br /&gt;Ele sorri. Acena. Cumprimenta. Despede-se. Anda, Kassy. Anda...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ela chama-se Maria. Chamam-lhe a porta-chaves. Ia casar. Viver com outro. Ficou sozinha.&lt;br /&gt;Ele vai-se embora.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;(escrito em 2004.09.20)&lt;/span&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/8534442-112419477415249472?l=chamam-se.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://chamam-se.blogspot.com/feeds/112419477415249472/comments/default' title='Post Comments'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=8534442&amp;postID=112419477415249472' title='0 Comments'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8534442/posts/default/112419477415249472'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8534442/posts/default/112419477415249472'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://chamam-se.blogspot.com/2005/08/chamam-lhe-maria-porta-chaves.html' title='Chamam-lhe “Maria, a Porta-Chaves&quot;'/><author><name>Ric ;)</name><uri>http://www.blogger.com/profile/14679730585851880195</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='http://4.bp.blogspot.com/-xUFKkHvceDE/ThDtCj9b8oI/AAAAAAAAE80/wNsfg-HpGuI/s220/ric-o-matic.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-8534442.post-112377705358196247</id><published>2005-08-11T09:16:00.000-07:00</published><updated>2005-08-11T09:18:41.210-07:00</updated><title type='text'>Chamavam-lhe “C.M."</title><content type='html'>Tive um amigo a quem chamávamos C.M.&lt;br /&gt;Só a malta de Ermesinde o conhece.&lt;br /&gt;Desde que saí de lá, nunca mais ouvi nada sobre o C.M. Chamávamos-lhe CM porque só tinha 2 cm. Mas por causa da situação minorca dele tínhamos alguns complexos em lhe alcunhar de centímetro. Então usámos as mesmas iniciais “cm” de centímetro e do jornal Correio da Manhã para o chamarmos de “CêEme”. Era mais subtil. Só para disfarçar. O CM não levava a mal e a nós simplificava-nos o trabalho.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Com o CM havia sempre episódios de bradar aos céus!&lt;br /&gt;Uma vez andou desaparecido durante 1 semana. Os pais dele já estavam a passar-se dos carretos. Ainda chegaram a ir aos telejornais, mas ninguém acreditou neles e no facto verídico de terem um filho minorca com apenas 2 cm. Felizmente, lá acabaram por encontrar o CM. Estava enfiado no meio dos pitons da chuteira do Albino. Tínhamos ido jogar futebol uma semana atrás e no meio de um lance confuso o CM enrolou-se todo e o Albino acabou por pisá-lo. Também, diga-se de passagem, o CM não estava na equipa senão por misericórdia. Nós bem o avisámos. Mas que se pode dizer a um gajo que insiste que pode marcar golos de cabeça...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Certa vez chegou-se ao pé de nós com ares de suspiro:&lt;br /&gt;-Arranjei uma namorada.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pelos vistos a fulana era de um bairro de ali perto. Nenhum de nós, do grupo, a tinha visto mais gorda. Ou mais feia. Quando o CM mostrou a foto ninguém piou. Era óbvio que a gaja só se tinha metido com ele para dar nas vistas e andar nas bocas do mundo. Nenhum conselho ou advertência saiu da boca de uma só cara borbulhenta naquela hora. Isto de gajos enrolados com gajas é mesmo assim, cada um que se cuide e aprenda com os próprios erros. Porque quando um gajo anda apaixonado, anda apaixonado. Ou dizendo como o Larva sempre dizia: &lt;em&gt;quando um tipo tem de esvaziá-los, qualquer tronco é macio&lt;/em&gt;...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Aquilo não durou muito. É claro. Nem podia. A fulana deu-lhe com os pés ainda nem o CM tinha adquirido poderes para tocar em todos os pontos sagrados, nevrálgicos e estimulantes. Pelo menos de livre vontade e sem para isso ter de passar privações e humilhações.&lt;br /&gt;Andou por baixo durante meses. O que não deixa de ser caricato, para um tipo com apenas dois centímetros de altura...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Estava o CM a começar a recuperar quando eu me pirei do bairro. O meu pai estava farto de subúrbios semeados de apartamentos T2 e T3 com menos de 80 metros quadrados e fomos ainda para mais longe, onde as casas eram maiores e mais baratas. Ainda cheguei a encontrar depois alguma dessa malta, mas sinais do CM, nem vê-los.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Há quem desate a rir quando conto histórias do CM, mas não me importo grandemente. Foi uma dessas amizades de infância imensas, das que ficam para a memória. Lembrar-me dos tempos em que íamos todos de férias e o CM não pagava nem viagem nem quarto porque o metíamos no bolso, lembrar que o gajo se metia na casa-de-banho das gajas da colónia de férias e nos vinha trazer as cuecas que sacava de surra, as notas que juntávamos à barda à conta das vezes que o gajo se enfiava nos escritórios a limpar cheques-restaurante ou, ainda, de como o CM se passava aos pontapés a quem o chamava de Estrunfe...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Há muitas coisas, e quase todas elas muito boas, que guardo desses tempos. Do CM. Da restante malta. E de como foi duro para aquele tipo minorca encontrar a primeira paixão desoladora... É daquelas lições que quase todos temos. Mas poucos as temos à escala que teve o CM. Aliás, viver de tal forma desequiparada a tudo o que nos rodeia só pode ser obra de um grande homem, que ultrapassa de sobremaneira não só as dificuldades mas o seu tempo igualmente. E o CM era, pelo menos até ao tempo em que o conheci, um grande homem. Talvez por isso recorde tudo isto de forma nostálgica e incrédula. E não deixa de ser irónico, afinal, ver na manchete do Correio da Manhã de hoje a notícia "Minorca evade-se da prisão de Caxias por entre as grades".&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Grande CM!&lt;br /&gt;Nunca ninguém apanhou aquele gajo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;(escrito em 2004.09.02)&lt;/span&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/8534442-112377705358196247?l=chamam-se.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://chamam-se.blogspot.com/feeds/112377705358196247/comments/default' title='Post Comments'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=8534442&amp;postID=112377705358196247' title='0 Comments'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8534442/posts/default/112377705358196247'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8534442/posts/default/112377705358196247'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://chamam-se.blogspot.com/2005/08/chamavam-lhe-cm.html' title='Chamavam-lhe “C.M.&quot;'/><author><name>Ric ;)</name><uri>http://www.blogger.com/profile/14679730585851880195</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='http://4.bp.blogspot.com/-xUFKkHvceDE/ThDtCj9b8oI/AAAAAAAAE80/wNsfg-HpGuI/s220/ric-o-matic.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-8534442.post-110570682610314422</id><published>2005-01-14T04:44:00.000-08:00</published><updated>2005-01-14T04:47:06.103-08:00</updated><title type='text'>Chamam-lhe "amarelo"</title><content type='html'>o título de cima foi só para te chamar a atenção.&lt;br /&gt;se estás aqui a ler esta parvónia, deu resultado.&lt;br /&gt;ainda bem.&lt;br /&gt;a sério.&lt;br /&gt;olha que as linhas deste compêndio até nem são más de todo.&lt;br /&gt;podem não te ajudar a resolver os dilemas existenciais ou sequer fazer decidir sobre o aborto, mas são fixes, são do melhor que há no mercado, de certa forma uma 'piéce de resistance' com garantia de evitar maus agoiros e promover o bom ócio.&lt;br /&gt;seja como for, o amarelo é o tema, e aqui está porque às vezes tudo descamba!&lt;br /&gt;o tema!&lt;br /&gt;porque tem de haver um tema?&lt;br /&gt;porque sim.&lt;br /&gt;foi, pelo menos, o que me disse o Fintas.&lt;br /&gt;o Fintas é um puto que eu conheço. é um puto baril. um bocado desajeitado à bola; mas claro que a gente não lhe diz isso assim de boca; mandamo-lo para a baliza e ele anda todo satisfeito a levar com os balázios do Magala.&lt;br /&gt;o Magala tem 14 anos mas já parece que tem 20; deve sofrer de gigantismo; disso e de embrutice aguda; diz sempre que faz anos a uma sexta; já lhe tentei explicar que o que conta é a data, não o dia da semana em que nasceu, mas ele não entende mesmo...&lt;br /&gt;seja como for,&lt;br /&gt;posto isto,&lt;br /&gt;ora bem,&lt;br /&gt;de qualquer modo,&lt;br /&gt;a.k.a. "inversão abrupta do tema de conversa",&lt;br /&gt;o que conta mesmo é que hoje vi um carro amarelo canário.&lt;br /&gt;é raro.&lt;br /&gt;acho que ainda só tinha visto três na vida.&lt;br /&gt;este era um Lotus Elan.&lt;br /&gt;o que explica muita coisa...&lt;br /&gt;a maior parte dos Lótus Elan saíram amarelos.&lt;br /&gt;este também.&lt;br /&gt;ia um gajo do outro lado a rua e pôs-se logo a gritar: amarelo cabrão f-d-p****!&lt;br /&gt;fiquei a pensar naquilo...&lt;br /&gt;há gente mesmo curiosa.&lt;br /&gt;devem trabalhar numa fábrica de tintas, ou coisa parecida.&lt;br /&gt;sabem de cor todos os nomes das cores.&lt;br /&gt;nesse campo só sei que os cortinados lá de casa são branco marfim.&lt;br /&gt;já é alguma coisa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;&lt;br /&gt;(escrito em 2004.09.01)&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/8534442-110570682610314422?l=chamam-se.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://chamam-se.blogspot.com/feeds/110570682610314422/comments/default' title='Post Comments'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=8534442&amp;postID=110570682610314422' title='0 Comments'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8534442/posts/default/110570682610314422'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8534442/posts/default/110570682610314422'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://chamam-se.blogspot.com/2005/01/chamam-lhe-amarelo.html' title='Chamam-lhe &quot;amarelo&quot;'/><author><name>Ric ;)</name><uri>http://www.blogger.com/profile/14679730585851880195</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='http://4.bp.blogspot.com/-xUFKkHvceDE/ThDtCj9b8oI/AAAAAAAAE80/wNsfg-HpGuI/s220/ric-o-matic.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-8534442.post-110553605285444089</id><published>2005-01-12T05:15:00.000-08:00</published><updated>2005-01-12T05:20:52.853-08:00</updated><title type='text'>Chamam-me Rui Jorge dos Santos Carvalho</title><content type='html'>Nem é como eu me chamo. Ou melhor, não é como eu me tenho ditamente visto sob entidade consciente; não é a minha imagem alfabética e verbalmente sígnica, diriam os semiologistas ou sistémicos... não me lembro qual deles o mais correcto aqui para o caso.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas, pelos vistos, o que aqui importa neste tempo (e concomitantemente nesta sociedade) é o valor e a sentença ditados pela maioria, ou pela média. Seja como for, nós mesmos nunca temos a palavra.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Por muito que eu fale e reclame, por muito que me possa orgulhar ou me seja indiferente, é um facto inegável de que o nome inscrito no título é mesmo o que vem no meu B.I. bege pálido, selado a branco e revestido a plástico duro, tal e qual, com a minha caligrafia na assinatura, sob a foto, na frente, e escrito à máquina no verso. A legibilidade do segundo caso é evidentemente preferível por todos os que consultam o documento.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O "dos" no meio do nome custou-me, certa vez, um regresso a casa, desde o centro da cidade, e novo retorno à baixa, no dia seguinte. Tudo porque ao preencher uns papéis para o serviço militar mo não tinham posto. Pediram desculpa, mas disseram que isso fazia muita diferença. Aliás, toda a diferença. E não aceitaram os papéis. Subiram ainda o sobrolho, torceram um pouco os lábios e de olhar afiado revistaram-me perscrutadoramente e afincadamente dos pés à cabeça. Felizmente nem estava muito mal vestido. "Era absolutamente necessário que eu preenchesse novamente os papéis". Finalmente soltaram todas as amarras que esticavam a tensão dos músculos, baixaram de novo o olhar sobre os papéis pousados na mesa e exprimiram apenas a verificação de um problema evidente à sua frente, um problema bicudo e quase irresolúvel, um caso difícil de ultrapassar a verificar-se a minha insistência negativa à proposta, definitivamente caótico se executada a minha acção de avançar com o documento tal como se apresentava, "ainda mais sabendo eu, em plena consciência e esclarecimento da situação e dos factos, do que se estava ali a passar".&lt;br /&gt;E nisto lá fui saindo, quando se preparavam para fechar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Voltei no dia seguinte com novos papéis preenchidos e o "dos" carregado em três passagens de caneta, para que a quem fosse tratar daquilo não lhe passasse despercebido à vista. No fim, pelo menos, recebi de volta um sorriso simpático pela minha cumplicidade e subserviência prestada. Achei que aquilo tinha sido uma qualquer prova a que eu acabara de passar com distinção, e fui-me embora...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Contudo, nem sempre sou estas 25 letras... ou melhor, estas 25 letras e 4 espaços por esta ordem. Por vezes gosto de baralhar tudo, mesmo comigo, tal como acontece com os papéis que vou deixando espalhados sobre a secretária. Assim igualmente com o meu nome: d-R-v-g-a-r-o-s-J-o-s-d... Bem vistas as coisas de longe, o caos gerado acaba também por gerar alguma reflexão filosófica de quem não tem mais nada de interessante para fazer. Mas basta ir buscar o pano do pó para reorganizar tudo pela ordem convencionalista das coisas, tal como faço com o meu quarto, de 15 em 15 dias, ou quando calha.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O que não deixa de ser uma ideia curiosa é esta de arranjarmos o nosso nome tal como arranjamos o nosso quarto, tal como mudamos a água ao aquário ou cuidamos de uma planta ou lavamos o nosso cão...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Contudo, por vezes é-me permitido deixar o campo das letras e ter o privilégio de possuir um número só meu. Sou então o 102689969. Tenho outros números, mas dizem-me que este é o mais importante. Chamam-lhe "número de contribuinte". E creio que uma grande parte das pessoas não o nota, mas a designação ecuménica, desde logo, presume que vamos contribuir com alguma coisa. Talvez seja por isso que o tornem indispensável para qualquer coisa, nos dias de hoje. Pelo menos todas as instituições bancárias e repartições do Estado o pedem.&lt;br /&gt;Eles lá sabem.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ainda assim, eu gostava de ver o dossier assinado pelas partes que elaboraram e autorizaram e selaram o aval do cartão. Mas o que eu gostava mesmo era de meter conversa com a rapariga da frente. Pergunto-me qual seria a reacção dela se eu neste momento simplesmente desaparecesse.&lt;br /&gt;O caos planetário?&lt;br /&gt;O país com os noticiários à minha procura?&lt;br /&gt;E tudo desvairado como uma mosca em piruetas, até a miúda deixar a barra de chocolate e perguntar à senhora do lado "De que estão a falar?" ou "Que se passa?".&lt;br /&gt;E o que é que a senhora lhe poderia dizer!?&lt;br /&gt;-Olhe, parece que desapareceu o 102689969.&lt;br /&gt;Ou então:&lt;br /&gt;-Olhe, parece que ninguém sabe onde pára o Rui Jorge dos Santos Carvalho.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas o mais curioso é que se eu fizesse desaparecer toda e qualquer nomenclatura e referência simbólica minhas, como saberiam quem procurar!? E se apagasse mesmo de todos os registos fotográficos a memória do meu rosto?!?&lt;br /&gt;-&lt;em&gt;Boa noite. Desapareceu, hoje, alguém. As entidades envolvidas na busca do indivíduo ainda não sabem quem ele é, apenas que desapareceu. Os pais todos do país choram e estão em pânico, porque ninguém sabe se se trata de um filho seu. Para além dos pais, a generalidade dos portugueses aguarda com impaciência, e sem por de lado o inevitável choque, de saber de quem se trata; se alguém das suas famílias ou grupo de amigos, ou simplesmente um desconhecido. A Polícia de Segurança Pública, a Guarda Nacional Republicana e, até mesmo, já um elemento da Secreta Portuguesa, vieram afirmar que, em princípio, não se deverá tratar de nenhum indivíduo perigoso. As empresas, nacionais e estrangeiras, lançaram o alerta, e dá-se agora uma corrida contra o tempo para verificar todos os relatórios de presenças dos últimos dias, na busca de alguma ausência, ainda que tal tarefa de pouco valha, pois todo e qualquer registo da pessoa desaparecida teve esse mesmo destino, e procurar uma coisa que não se sabe o que é torna-se, portanto, uma tarefa inglória e destinada ao fracasso logo à partida. A certeza, essa, é só uma: alguém desapareceu, e não fui eu.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/em&gt;Seria engraçado, para aumentar o tom caótico e estapafúrdio da situação, se nesse preciso instante a electricidade fosse abaixo e a emissão desaparecesse. Mais ainda se fosse noite e toda a gente ficasse às escuras. Creio que, nas suas casas, abraçados pelas quatro paredes de suas salas ou quartos, os telespectadores ou radiouvintes ficariam primeiro estarrecidos num sufoco abismal e apavorado, posteriormente rebentando num pranto alongado e histérico, berreiro digno de ser registado em banda magnética. O digno sangue-frio que se dispusesse a ir buscar, calmamente, o aparelho gravador ao seu armário, e que gravasse em qualidade estéreo o grito geral, à medida que fosse passeando pelos corredores dos prédios e até pelas ruas, poderia depois de todo o alarido lançar um álbum, quem sabe, intitulado "Crying for Disappearance Suite in Si Minor". Claro que depois, como faixas extra, em oferta aos fãs, estariam a "Improviso em Martelo Pneumático" ou mesmo a "Sonata em Telemóvel Sem Bateria", esta última uma faixa experimentalista onde um imenso silêncio poderia ser ouvido durante alguns escassos segundos. Quanto ao sucesso da primeira faixa extra, ele em muito dependeria do tipo de terreno (perdão, palco) em que (onde) se executaria a obra (perdão novamente: peça), bem como a marca do martelo (dito instrumento) e até da força do seu operador (artista).&lt;br /&gt;Quanto a mim...&lt;br /&gt;...quanto a mim...&lt;br /&gt;mim&lt;br /&gt;Uma palavra capicua que em português é excelente para o que designa, porque não cessa um constante vai e vem que, profundamente e fundamentalmente, é isso mesmo que simboliza: uma pergunta-resposta, mas sem resposta, a responder-se com perguntas, sem fim: &lt;-&gt; m &lt;-&gt; i &lt;-&gt; m &lt;-&gt; i &lt;-&gt; m &lt;-&gt; i (...)&lt;br /&gt;mim&lt;br /&gt;E daí?&lt;br /&gt;Será que o país e o Estado e as empresas ficariam mais descansados depois de descobrirem o meu nome?&lt;br /&gt;Certamente ficariam.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E ficaria mais esclarecida esta miúda com a sua barra de chocolate já no fim?&lt;br /&gt;Talvez um bocadinho; quase como o resto da barra que vai agora termin... não, guardou-a no resto do plástico; ou já estava enjoada; ou talvez seja um ritual...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E nisto, acredito veementemente e finalmente que pelo menos alguma coisa significaria se a senhora do lado lhe divulgasse que o rapaz (dica X) desaparecido se considerava um discípulo de Sócrates quanto à sua nacionalidade (dicas Y e Z) e que gostava de rosas e margaridas (dicas V e W) e que o azul era a sua cor preferida (dica R), sendo que uma das suas paixões era viajar, outra ouvir música e outras ir ao cinema, estar com os amigos, conversar sobre tudo menos coscuvilhices, ler e escrever (dicas A, F, D, P, Q, K e S). Seria uma combinação que elegeria da massa amorfa da sociedade tanto esclarecimento quanto dizer que o meu nome era Rui Jorge dos Santos Carvalho e o meu número de contribuinte 102689969. Contudo sempre daria um esboço mais simpático e imaginativo, obtendo mais pontos pelo romantismo despertado e pelo tempo ocupado a traçar um retrato-robot. Ou seja, sempre seria mais qualquer coisa, e alguma coisa mais interessante, ou quem sabe do total com algumas coisas interessantes e certas coisas desinteressantes, sendo outras coisas completamente dispensáveis e trocáveis por qualquer outra coisa comum com as coisas dela. Resumidamente: daria para emitir uma opinião, nem que escassa e mal baseada, mas sempre uma opinião.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas o que importa retirar desta minha odisseia será, talvez (perdoe-se-me o abuso convencido e chato) uma coisa: que eu me chamo o nome que me deram, o nome que todos os dias me lembram, o nome que eu sou obrigado a dar para não gerar confusão nos outros e até em mim; mas ninguém me chama ainda o nome que eu gostaria, e a razão, essa, é simples, difícil ou impossível de resolvê-la eu por mim mesmo, e contudo leve, serena na imagem e situação, pois que é apenas porque a cama está vazia e, também, por outro lado, as gavetas cheias.&lt;br /&gt;Contraditório?&lt;br /&gt;Confuso.&lt;br /&gt;Talvez... mas eu digo que nem por isso, só à primeira vista. E quem sabe, talvez seja mesmo por ela que as duas situações vão tendo pouso fixo...&lt;br /&gt;Nisto termino e assino:&lt;br /&gt;-o próprio.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;(escrito em 2002.04.27)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/8534442-110553605285444089?l=chamam-se.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://chamam-se.blogspot.com/feeds/110553605285444089/comments/default' title='Post Comments'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=8534442&amp;postID=110553605285444089' title='0 Comments'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8534442/posts/default/110553605285444089'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8534442/posts/default/110553605285444089'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://chamam-se.blogspot.com/2005/01/chamam-me-rui-jorge-dos-santos.html' title='Chamam-me Rui Jorge dos Santos Carvalho'/><author><name>Ric ;)</name><uri>http://www.blogger.com/profile/14679730585851880195</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='http://4.bp.blogspot.com/-xUFKkHvceDE/ThDtCj9b8oI/AAAAAAAAE80/wNsfg-HpGuI/s220/ric-o-matic.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-8534442.post-110553433330898204</id><published>2005-01-12T04:39:00.000-08:00</published><updated>2005-01-12T04:52:13.306-08:00</updated><title type='text'>Chamam-me "nada"</title><content type='html'>Eu já os ouvi. Por aí. dizem-me bom dia e boa-tarde e boa-noie e olá. E.  Dizem mais. Que me importam. O Xavier já por várias vezes que me vem com a mesma história. Fernando, estes são... Não quero saber! Já lhe disse tantas vezes. Não quero saber. Para mim são números. É tudo números. Não foi de outra maneira que cheguei aqui. É um cargo importante. Director. Director da contabilidade desta empresa. Fernando Negrão. Director. Está lá escrito. E quero lá saber que me chamem os nomes que certamente me chamam. Sou o que for preciso para que as coisas corram bem. Chamam-me um número também. Chamam-me zero. Menos que zero. Nada. Inexistente. Pois então que saibam. O que lhes aconteceu. Vem do nada. Deste nada. À merda. Todos. Tudo gente mesquinha. Quem precisa desta gente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Já os vi para aí a apontar. Apontam quando chego. Só porque tenho um Porsche. Eu não ando para aí a gastar dinheiro em casas nos subúrbios. Ou em creches. Ou em férias no Algarve ou no sul de Espanha. Eles que se marimbem se eu vivo com a minha mãe. Quem têm com isso. À merda. Digo-o. A todos. Quem quiser ouvir. Mas não eles. Já disse ao Teixeira que me mando aos ares quando me vem espicaçar com aquelas tretas de aproximar os trabalhadores... Às favas com os cursos na América. Tretas. Uma empresa funciona é com atitude. Maricas. Andam-se a comer uns aos outros e já não se pode fazer nada. Antigamente havia maneiras. Hoje torna-se difícil. Há quem faça de tudo para subir.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Meto a gravata com o nó apertado.&lt;br /&gt;Gosto assim.&lt;br /&gt;As camisas brancas.&lt;br /&gt;Sou alto.&lt;br /&gt;Gosto de mim.&lt;br /&gt;Gosto de pentear-me assim.&lt;br /&gt;De puxar e realçar a testa.&lt;br /&gt;Sou egocêntrico.&lt;br /&gt;Sou mesmo.&lt;br /&gt;Aprendi a gostar de quem sou. Acho que não aprendi, aliás. Já sou assim. Assim. É assim mesmo. Não há cá naturezas a mudar. Cada um é como é. E as balelas de reconversões de quadro de pessoal!!... Mas alguém que andava na DRH vai-me agora fazer o quê para o Marketing. Eu não dou dinheiro a merdas dessas. Querem gastar dinheiro. Então que gastem com o que deve ser. Com profissionais como deve ser. E há por aí muito bom estudante. Saem das faculdades e sabem o que fazer. Não reclamam porque lhes pedem mais horas para fazer as coisas. Todos uma cambada de Cubistas. Passam a vida a deformar a realidade. Todos uns líricos. E aquele merdas do Teixeira... eu já o percebi há muito tempo. Sei muito bem. Ele e  o outro...&lt;br /&gt;Mãe.&lt;br /&gt;Sabes...&lt;br /&gt;Mãe...&lt;br /&gt;Sim.&lt;br /&gt;Podia falar com o Francisco Palmela. Ele...&lt;br /&gt;Sim...&lt;br /&gt;Eu sei, mãe...&lt;br /&gt;Ela tem razão... Não vale a pena. Um dia destes damos um jantar cá em casa ao Castro de Melo. Ele já sabe como é. Falamos e a coisa resolve-se. Mais ano menos ano.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Escusam de me olhar.&lt;br /&gt;Porque insistem em dizer-me bom-dia!?&lt;br /&gt;Já sabem que não respondo!&lt;br /&gt;Irritação logo de manhã.&lt;br /&gt;Os genes deram-me um metro e noventa de altura mas mesmo assim esta gentinha continua a querer chegar-me às suíças. Cambada...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Luísa, passe-me o Sintra Ferreira e diga ao Vasco Preto para me trazer o relatório semestral de contas. Isso rápido. Mande entregar também uns cafés.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Todos os dias a mesma porcaria. Lá estão. Outra. E outra. Outra vez a chegar-me cartas de... Chiça! Merdas de reclamações. Já deviam saber. Ainda há gente. O que é que lhes alimenta a esperança!? Deve ser o desespero. Gente pobre. Que miséria de gente. Cambada de abutres. É o que são. A gente dá-lhes um por cento. Reclamam logo que mereciam três. E ainda se. Então não podem combinar? Receber dois? É o que eu digo. O melhor é não lhes dar. Nada. É para ver se se acalmam um bocado. Baixam a bola.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Já vim a saber. Não é casado. Isso explica tudo. Ele deve ser...&lt;br /&gt;Deve ser...&lt;br /&gt;Deve ser...&lt;br /&gt;Deve ser...&lt;br /&gt;Ele deve ser...&lt;br /&gt;Põem-se para ali com conjecturas e devem seres...&lt;br /&gt;Deve ser...&lt;br /&gt;Sabem eles o quê?&lt;br /&gt;A maior parte desta gente nem numa faculdade meteu os calcantes, quanto mais as botas sujas e de napa com que andam todos os dias!&lt;br /&gt;Gentinha...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Vou propor ao Sr. Administrador que façamos um corte nas despesas de formação. Para quê? Já é o terceiro ano. Acho que esta merda é só para os directores andarem para aí. A limparem. As botas. A uns quantos! E ainda virem receber por fora. Aposto que se fizéssemos uns testes... A maior parte dos funcionários não aprendeu nada. E se aprendeu, já esqueceu. Cambada. Incompetentes. Safam-se trinta por cento. Ou menos. Ainda. Hei-de provar isto. Esta empresa e a maioria. Fazia-se com trinta por cento. As pessoas certas. Nada desta corja. Cambada de ovelhas preguiçosas...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tenebroso. Maquiavélico.&lt;br /&gt;Ele deve ser...&lt;br /&gt;Eles sabem lá.&lt;br /&gt;Amanhã mando-me para a Quinta das Vidigueiras.&lt;br /&gt;Eles que fiquem com os subúrbios.&lt;br /&gt;Só pedia que se calassem.&lt;br /&gt;Até recomendava um aumento das despesas com pessoal.&lt;br /&gt;Se se calassem.&lt;br /&gt;Se parassem.&lt;br /&gt;De uma vez por todas!&lt;br /&gt;Se parassem de uma vez por todas de me dizer bom-dia.&lt;br /&gt;A merda do bom-dia!&lt;br /&gt;Baixem a cara. Olhem os atacadores das sapatilhas. Metam-se nas vossas vidinhas de miséria. Piquem o ponto. Trabalhem as horas a horas. Ofereçam cafezinhos. Entre vocês. Felizmente eu ainda tenho boquinha para os mandar vir.&lt;br /&gt;Agora, com licença.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;(escrito em 2004.10.21)&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/8534442-110553433330898204?l=chamam-se.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://chamam-se.blogspot.com/feeds/110553433330898204/comments/default' title='Post Comments'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=8534442&amp;postID=110553433330898204' title='0 Comments'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8534442/posts/default/110553433330898204'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8534442/posts/default/110553433330898204'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://chamam-se.blogspot.com/2005/01/chamam-me-nada.html' title='Chamam-me &quot;nada&quot;'/><author><name>Ric ;)</name><uri>http://www.blogger.com/profile/14679730585851880195</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='http://4.bp.blogspot.com/-xUFKkHvceDE/ThDtCj9b8oI/AAAAAAAAE80/wNsfg-HpGuI/s220/ric-o-matic.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-8534442.post-110500419423798612</id><published>2005-01-06T01:17:00.000-08:00</published><updated>2005-01-12T04:38:53.513-08:00</updated><title type='text'>Chamam-lhes "meninas"</title><content type='html'>Mulher. Mulher? Mulher. Menina. Todas meninas de rua. Putas. Magras algumas. Gordas. Coxas grossas nuas. Calções brancos de bainha para fora. Gangas. Um casaco de pele falsa. Nas ruas. Ao frio. Encostadas a um poste. Sob o telhado de vidro de uma paragem de autocarro. Amparadas umas às outras. Em fogueira. Em conversa. A sós numa esquina. Juntas à espera entre ‘chiclets’ e cigarros e experiências trocadas. Botas altas. Sandálias de tiras. Tops de alças. Camisolas encolhidas na máquina. Soutien de renda e mais nada. Boca vermelha. Boca rosa. Boca brilhante como os pneus de um carro novo no stand; não como os carros que param. Cabelos compridos à solta. Cabelos lisos curtos. Loiras. Morenas. Sotaque daqui e dali. Portuguesas. Estrangeiras.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mulheres, meninas e putas com gordura para todos os gostos e dietas, vestidas cada uma com sua própria e única fantasia diária de pé pelas ruas, em conversa ampla ou em surdina, sempre à espera, cabelos ajeitados com dois dedos para o lado, olhos desviados por mais de dois segundos de contacto, silêncio.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Há conversa? Quanto levas? Que é que fazes?...&lt;br /&gt;Nem uma palavra do batom carregado de vermelho.&lt;br /&gt;Julgas que és mais que as outras!? Puta convencida! Levas onde levam todas!&lt;br /&gt;Mais uma hora que passa. Às vezes aviam-se dois de uma assentada em 15 minutos. O dobro para sua despesa. Depende da hora, da época, da zona...&lt;br /&gt;Os semáforos carregam-se de vermelho. Alongam-se. Os olhos.&lt;br /&gt;Fábricas de sonhos.&lt;br /&gt;Produção industrial.&lt;br /&gt;Foi-se o luxo da imaginação.&lt;br /&gt;Carne por carne.&lt;br /&gt;A solidão o mal do sec. XXI.&lt;br /&gt;...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E tu?&lt;br /&gt;Ela volta-se. Olha.&lt;br /&gt;Quanto é? Quanto levas? O que fazes? Onde? Depende. 5. 50. 35. Ou mais? Tudo? Quente. Tua. Onde quiseres. Não quero. Não queres. Vai-te embora. Esquisita. Esquisito. Decepção. De longe parecia. Nem aqui.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Até as putas já se dão ao luxo de escolher trabalho. Pagam-lhes demais. Têm o nome. Audácia. Experiência. A mais velha do mundo. Onde têm a carta de referências? Não há escolas? Nos bordéis pagam para lhes ensinar as várias maneiras? Precisam de cobaias para praticar?&lt;br /&gt;Há mais por aí.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Metes-me medo...&lt;br /&gt;E contudo é Inverno.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Uma brisa varre rente ao chão. Cimento gasto e gretado. Corta as pernas até à micro-saia. Rasga os lábios encapados de batom. Enruga a pele coberta de base. Chora os olhos. Choram os olhos. Um poste de luz é um abrigo.&lt;br /&gt;Linda menina!&lt;br /&gt;Ela desvia.&lt;br /&gt;Ele passa e desaparece com a luz verde.&lt;br /&gt;Mais à frente&lt;br /&gt;-que fazem aqui a esta hora?&lt;br /&gt;-esperamos o autocarro, sr. agente!&lt;br /&gt;Riem-se todas. Sempre o mesmo. Logo ele passa. Já conhece a história. Dizem que faz parte dela.&lt;br /&gt;Risinhos. Escárnio. Cuspo. Garrafas atiradas de passagem rápida e vidros baixados. Gritos. Urros. Bebedeiras. Ares de fastio. Ares de inveja. Ares cúmplices. Fantasias. Tudo depende da hora; há fases. A época também. Mas é mais o dia. E a zona. A acabar distribuem-se sempre pastilhas a dobrar. Morango preferidas. Mentol também.&lt;br /&gt;Música nas alturas e alguém a lembrar “La Puta Cabra! La Puta Cabra!”&lt;br /&gt;Elas percebem. São putas. Não são burras.&lt;br /&gt;-Cabrões filhos-da-puta!&lt;br /&gt;-A minha mãe não te conhecia!&lt;br /&gt;-Mete-lho acima para ver se ela se lembra, cabrão de merda!!&lt;br /&gt;-Suas puutas!!&lt;br /&gt;Cada um faz pela vida.&lt;br /&gt;Cada um faz a sua vida.&lt;br /&gt;Cada um se faz à vida.&lt;br /&gt;Cada uma faz a vida.&lt;br /&gt;Faz-me agora.&lt;br /&gt;É uma de 100.&lt;br /&gt;Está bem! Despacha-te, minha puta! Isso! Assim... Assim... Põe-te agora em cima! Toma mais 50! Vá, anda, despacha-te lindinha!&lt;br /&gt;Por trás, jóia! Duas de 20. Não dá, amor? São das antigas, querida! Ah, agora já cantas! E também falas ao microfone? Isto serve-te, não serve? Já sei que não podes falar...&lt;br /&gt;...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nem todo o que chega sai com companhia.&lt;br /&gt;-Rai’s te fodam, grande puta!&lt;br /&gt;-Vai meter pilhas dentro, filhinho!&lt;br /&gt;-Ainda hás-de vir chuchá-la de graça!&lt;br /&gt;-Põe-t’andar, cabrão! Vai meter o caralho na cona da tua mãe!&lt;br /&gt;-Vim agora da tua! Ela é que te recomendou!&lt;br /&gt;-Circula, cabrão! Vai bater uma!&lt;br /&gt;-Vai tu circular essa cona p’rá piça do teu pai, grande vaca!&lt;br /&gt;Arranca.&lt;br /&gt;Acaba.&lt;br /&gt;Recomeça.&lt;br /&gt;Risada.&lt;br /&gt;Rotina.&lt;br /&gt;Noite e dia.&lt;br /&gt;O silêncio mama da noite. Prédios de olhos fechados. A lua muda. Uma ou outra sirene relampeja mas nem discute porque nem pára. Até à noite o tempo escasseia. Até à noite que vem. Até de dia. Até amanhã.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas agora ainda dura. Pela mata ou pela rua. Esquisita? Desesperada? Ainda nula? Dependência? Ninfomaníaca?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Dá-me uma enquanto metes uma dose comigo. Pagas? Está incluído? E se houver outras? E se houver outros?... Por cima. De lado. Em pé. Deitada. A cavalo. Engoles? Ver-te com outra. Vais com dois? Metes duas na mesma? Mete-a toda na boca? Chupa. Lambe-a toda. Aqui no carro. Em minha casa ou na tua. Em frente a um espelho. Despe-te. Bate-me uma. Veste isto. Salta! Levas estaladas? Bate-me com força. Meia-hora. Chibatadas? Dás ou levas? Fode-me até ficares toda fodida! Pedrada! Dormes lá? Para um filme. Deixas-te ser gravada? Fotografada? Lambida? Mijada? Faz um strip. Mais 3 notas. No cu? Sem preservativo. Sem preservativo? Com preservativo. Aguentas mais no pito? Ao mesmo tempo no cu e na rata! Vem-te! Vem-te agora! Geme. Grita. Quem manda? Diz quem manda! Puta! Agora em cima da mesa. Agora em cima da banca. Um 69! Deita-te na cama! Estica-te no carro. Mete as mudanças dentro do pito! Uma rapidinha aqui na mata. Põe-te lá fora!&lt;br /&gt;Morta.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Encontrada morta, ontem, “menina da rua”, vista pela última vez na zona da praia da desgraça, junto ao bairro fácil e perigoso, pelas 2 da madrugada.&lt;br /&gt;Chama-lhes meninas... Sabem mais que a avó da humanidade inteira!&lt;br /&gt;Putas!&lt;br /&gt;Coitada...&lt;br /&gt;Drogada.&lt;br /&gt;Esporrada toda ela.&lt;br /&gt;Porrada nela enquanto levou nela. Durou quase duas horas.&lt;br /&gt;Autópsia: violada, espancada, morta, basta.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas a rotina retoma.&lt;br /&gt;Chega a noite, abre a loja, e outras coisas.&lt;br /&gt;Quase todas iguais. Umas mais fufas que outras. Umas mais esquisitas que outras. Em saldos umas. De luxo outras. As razões confusas. Um carro das notícias à espreita para fazer uma reportagem. Elas vêem-no. Fazem que não vêem. Entram no primeiro carro e dali a minutos vêem-no. Regressam ao mesmo sítio. Dinheiro escondido. Um susto ou nada demais. Gozo. Piadas e coscuvilhices desta e daquela. Um trabalho como os outros. Quem tem sorte são aquelas putas estrangeiras! Passam o dia a dançar e a bater punhetas. Moedas a cair para deslizar as janelas. Lenços de papel nos baldes ao canto. Música ‘techno’ aos pulos abafada. A voz a anunciar a número 4 Andrea para fazer companhia à 2 Laura. Cabines repletas. Alguém tem de se contentar com as cassetes de vídeo. A estas chamam-lhes as putas do peep-show. Algumas transsexuais? Algumas elas que foram eles? Feias ou bonitas, todas tiram a roupa mínima. Como se fosse coisa do outro mundo. Os espelhos facilitam e prolongam a vista. Privacidade nenhuma. Olhos nos olhos. O tecto a rodopiar a távola vermelha. Se duas, quase pára. Um sorriso repetido sempre da mesma forma. Os mesmos gestos copiados. Lá chega uma nova. Genica. Que língua fala? Desaparece por trás da cortina. Novo lenço na távola, nova cara, nova coxa, nova rata, carteira vazia. Rua fora.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quiosques repletos de capas. Playboy. Penthouse. Clímax. Peles lisas. Bocas bem desenhadas. Seios firmes. Esculturas rapadas. Desenhos artísticos. Há pouco duas tinham celulite, quando mais se mexiam. Uma estava com pele de galinha. Outra tinha um penso rápido numa mama. Acabada de passar a lâmina há minutos noutra; pele sensível. Duas grandes borbulhas vermelhas, uma em cada nádega. Do sensual ao serenamente cómico.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas se a noite se prolonga, só a mentira fica pronta, e de gala, junto à fantasia.&lt;br /&gt;Imagens pixelizadas de bocas pulposas com as línguas de fora ainda a pingarem leite. Fontes de mamas espalhadas pela cidade escura e obscura. Cada carro uma boleia para as estrelas. Abertas as braguilhas da sociedade, baixadas as calças, levantadas as saias, abertas as pernas... somos todos a mesma criatura?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O romance ficou à porta.&lt;br /&gt;Quem escrevia cartas às meninas? Quem visitava os bordéis às sextas-feiras e aos sábados? Quem tinha uma fixa? Quem pagava mensalidade? Quem sabia a história de todas?&lt;br /&gt;Como te chamas hoje?&lt;br /&gt;Que te interessa? Sónia.&lt;br /&gt;E tu?&lt;br /&gt;Não é da tua conta. Paula.&lt;br /&gt;Queres chamar a tua amiga?&lt;br /&gt;Quem, a Sandra?&lt;br /&gt;...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Todas sónias. E sandras, e martas, e paulas, e anas, e algumas com nomes estranhos de letras em ordem confusa, e sempre de muito poucas palavras. Depois refinam-se. São susy. São dany. São eleide. São mary. São caty...&lt;br /&gt;Mas para quê, se vais ter a boca cheia!? Entra. Toma, guarda já. Tens meia hora. Chega. Vai-o chupando enquanto bates uma. Isso. Isso! Espera. Ah, é tão bom! Tu és tão bom, querido! Excitas-me toda! Ah, puta, isso... chupa-o todo... Tão boa... Fode-me, querido, fode-me toda. Queres, não queres? Já levaste com ele na cara agora queres levá-lo na cona! Abre-te toda, minha puta! Isso, isso... Ah, isso, mete-o todo, querido! Enterra-mo na cona! Põe-te de lado, para te ir por trás, minha puta! Ah, tão boa... ah, tão boa... Toma, é isto que queres? É, não é!? Sim... sim... Diz mais alto! Sim! Já estás a gemer? Ah, sim, sim! Ah, fode-me toda! Isso, fode-me toda! Puta! Ai, meu Deus! Ah, sim, sim, sim! Entra-me! Enterra-mo! Fode-me! Anda! Fode-me a cona toda! Fode-me toda! Anda, garanhão! Anda, querido! Vem-te na minha rata! Deita cá para fora essa esporra toda! Ah, puta de merda! Boa!... Anda... Toma... queres levar nela... Sim, mais! Mais! Enfia-o todo! Enfia esse mangalho todo e esporra-me a cona toda! Não, quero-me vir na tua cara! Estás-te a vir!? Quase... Estou quase... ah, minha puta, toma, chupa-o e engole a esporra toda! Encharca as mamas! Espalha-o todo! Isso! Isso! Ah!... Mmm! Isso, isso querido! És tão forte! Isso, querido... Mmm...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;De volta tudo ao sítio.&lt;br /&gt;Ao bocal de partida.&lt;br /&gt;Ao local de chegada e ida.&lt;br /&gt;À Sida?&lt;br /&gt;Paciência...&lt;br /&gt;No fim é tudo sobre quem quer e quem paga.&lt;br /&gt;Só.&lt;br /&gt;Farsa palhaçada?&lt;br /&gt;Quem sabe de que se fala?&lt;br /&gt;Só se conhece quem actua - loira, morena, mulata, asiática, brasileira, eslava, baixa, alta, magra, esguia, gorda, mamalhuda, escanzelada, doente, bonita, horrorosa, pintada, porca, de cá, de fora, desta zona, do chulo x, por conta própria, só para pagar a escola, esta é de graça, para a droga, para a roupa, como uma esponja, só quando precisa...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Alguém encontra de manhã uma prova?&lt;br /&gt;Impecável limpeza.&lt;br /&gt;A polícia.&lt;br /&gt;Como a outra, na praia...&lt;br /&gt;Boleia para a aventura. Mais uma nota, mais uma viagem. Mais uma dose.&lt;br /&gt;Droga de vida, a vida para a droga. Comida e roupa lavada ou renda.&lt;br /&gt;Chamam-lhes meninas, mas já são crescidas.&lt;br /&gt;-Antes isto que lavar escadas.&lt;br /&gt;-E quem me paga a casa?&lt;br /&gt;-Quem me dá a sopa?&lt;br /&gt;A mais velha companheira da rua.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Conhecem-se quase todas. Batem as zonas. Ficam-se por uma. Respeitam-se e odeiam-se. Comadres e concorrentes. De luxo barato a baratas. As grandes companhias valem hotéis pagos à diária. Algumas são estrelas. Algumas casam mesmo com eles. A maioria é como em tudo o resto o que é a maioria, fica-se pela maioria e fica-se pela média.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quem as vê na rua, se é homem, levanta a cabeça e sonha, depois deseja, depois pensa e continua, com a cabeça baixa; se é mulher levanta a sobrancelha e desafia, dando o braço a quem tem ao lado, e nem desconfia...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Algumas nem se reconhecem quando nos vendem o que vendem na loja de dia, enquanto dobram a roupa, enquanto embalam ou enquanto fazem o que fazem, das compras na mercearia à discoteca.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pelo meio, no fundo ninguém se conhece mesmo, mas vale sempre mais a pena compor a personagem, trocar a calça pela saia e a discrição pela cor garrida.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eles, alguns, têm de passar na lavandaria longínqua para tirar uma marca rosa da gola da camisa. Mas se a coisa escapa na miopia da chegada, e se é vista pela que vive a vida (não a da rua), também não há problema:&lt;br /&gt;-Ora essa, amor, foi só uma menina.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;(escrito em 2002.02.17)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/8534442-110500419423798612?l=chamam-se.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://chamam-se.blogspot.com/feeds/110500419423798612/comments/default' title='Post Comments'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=8534442&amp;postID=110500419423798612' title='0 Comments'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8534442/posts/default/110500419423798612'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8534442/posts/default/110500419423798612'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://chamam-se.blogspot.com/2005/01/chamam-lhes-meninas.html' title='Chamam-lhes &quot;meninas&quot;'/><author><name>Ric ;)</name><uri>http://www.blogger.com/profile/14679730585851880195</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='http://4.bp.blogspot.com/-xUFKkHvceDE/ThDtCj9b8oI/AAAAAAAAE80/wNsfg-HpGuI/s220/ric-o-matic.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-8534442.post-110477361223548098</id><published>2005-01-03T09:31:00.000-08:00</published><updated>2005-01-12T04:38:21.053-08:00</updated><title type='text'>Chamam-lhe o "Vela Azul"</title><content type='html'>Chamam-lhe assim porque, quando para lá foram os que o compraram (os nomes dos ditos perderam-se no tempo) já assim se chamava.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Montra de vidro com toldo de pano cá fora, azul. Bolos a ver a malta a vê-los sobre guardanapos montados sobre um pano, azul. Sobre as mesas, de madeira escura e risca, azul, as toalhas quadradas de papel, branco. Estampada no vidro da porta entre aberta e fechada, uma dessas toalhas, furtada ao seu destino inicial e violada a marcador, azul, claro, e crucificada com fita-cola, bem virada para fora, o sol empinado a enviar uns quantos descendentes raios para ver o que está escrito cá em baixo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas não é romance algum, apenas a ementa do dia sem grandes histórias nem tempo para romances, e quem quiser que entenda:&lt;br /&gt;-Pratos do Dia: fêveras grelhadas, bacalhau há Braz e frango cosido / Acompanhamentos: batata frita, arroz branco ou arroz de ervilhas, vinho da casa, refrigerantes vários, agua com e sem gaz.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não há que enganar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mesmo assim nem toda a gente lá entra. Ou melhor, entrar entra, mas ficar não fica. A selecção é natural e rápida, sempre baseada na cara de quem lá vai e no subsequente orçamento divulgado ao visitante pela obra que lhe será servida para ser devorada de seguida e sem demora, que ali é local de comida rápida e não de fazer sala.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Cliente habitual, recebe uma lista, com nota em cima a dar conta dos pratos do dia a 5 euros e os restantes com mais 2 em cima. Para o visitante comum é entregue outra lista, bem devidamente camuflada por fora mas recheada no seu organismo interno desfolhado pela mão estranha com notas de prato do dia a 7 euros e com mais 2 para o resto. Ciganos de mau aspecto (que o mesmo é dizer que para o Vela Azul são todos os ciganos), pretos a falar alto ou de modos bruscos ou então pretos que não venham com algo sujo de um qualquer trabalho, bem como velhos caquécticos, incómodos e esquisitos - segue diferente lista, com a nota dos pratos do dia a ascender aos 8 euros com os normais 2 a aumentar sobre os restantes pratos constantes da carta.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E se, por algum acaso, ou por distracção do empregado ou esperteza de quem topou o esquema, duas listas são vistas e a discordância notada, não faz mal, que para além da arte da cozinha no Vela Azul todo o empregado tem bem temperada a língua e sai logo para o balcão:&lt;br /&gt;-&lt;strong&gt;Mas que merda é esta, ó Joaquim, misturaste as listas de ontem com as de hoje!? Vê lá onde pões a cabeça&lt;/strong&gt;!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas quem se diverte com isto tudo, no fundo, não são os empregados do Vela Azul, que para eles é tudo rotina e negócio, parte do trabalho, como a seguir vem servir cafés e depois limpar a mesa, para além de chatear a alma a quem por ali passa na sua desgraça.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No meio de tudo isto, o gozo vai para os ‘habituées’ que ali comem todos os dias, que observam de longe as almas penadas pousando em total desconhecimento e nunca mais voltando. Só os desesperados, ou completamente ignorantes, ou os de grande carteira ou mesmo de língua calejada é que vão ficando, até se tornarem gente da casa e perceberem que não vale a pena perder tempo a ler a ementa, porque no Vela Azul é certinho, peixe ou carne, vaca ou galinha, com legumes cozidos ou salada fresca, nada importa, sabe sempre tudo ao mesmo, o óleo é raramente mudado, o arroz com o repetido refogado, a salada com igual tempero, e as reticências para fazer valer isto para tudo o resto...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Perguntem ao Sérgio.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Empregado de longa data, há quem discuta se o grau de disfuncionamento do Sérgio é tão elevado quanto o do estabelecimento, ou se tem um problema de ouvidos e nervosismo crónico (caso este último irónico para um tipo a trabalhar num sítio que serve cafés a toda a hora e de onde tira a cada 10 um para ele de borla). Porque entenda-se, o Sérgio não pára quieto, e mais do que isso, não deixa ninguém comer descansado. O que vale é que é tamanho o descalabro que quem lá vai comer já se diverte com o espectáculo. Pede-se o peixe frito, mas o Sérgio é quase certo que traz ou arroz de pato ou frango assado com batata pala-pala.&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;-Ó Sérgio, não foi isto que eu pedi...&lt;br /&gt;-Deixa lá, isso também está bom. Come na mesma!&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;É mesmo assim que responde, logo mirando concentradamente a televisão no canto superior da janela ou voltando costas e não voltando em pessoa inteira senão quando menos se espera e menos é preciso... aí por volta do princípio do fim da refeição. Porque se alguém cai no erro de pousar os talheres, é num gesto rápido, matemático e perfeitamente bem executado que a mão direita de dedos compridos e fortes do Sérgio dança um arco silencioso, afundando nos últimos instantes as pontas por sob a travessa e o prato - qual águia levantando nas garras aquilo que o cliente pode bem ter já acabado como pode nem ter sequer chegado a meio. E de pouco adianta resmungar, que lá adiante já segue o Sérgio. Só resta subir a voz e pedir o que falta e foi raptado em tempo indevido, mas com a certeza de que para trás não virá o mesmo prato; quem sabe, agora sim o peixe frito.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O melhor mesmo é assumir a faca como o sexto dedo de uma mão (ou o garfo, para os mais económicos de ferramenta) e não a pousar senão com a certeza de ter terminado. Depois, sim, nem é preciso chamar pelo Sérgio, que ao mínimo voltar de crânio e atenção visual para outro lado nem se dará pela rapina - na mesa já nada resta da comida servida ainda há pouco.&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;-Sérgio!... É pá, então mandam-me isto com uma barata esturricada na travessa!?!&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;O Sérgio não hesita, levanta a travessa de barro com o arroz de pato, e ali fica, de mão no ar, a observar a travessa em inox que servia de suporte ao manjar no barro quente tirado directamente do forno. Ali está ela, uma barata de patas finas ao alto, torcidas e completamente queimadas, corpo estaladiço pelo fogo do forno e já esmagado e esmigalhado pelo peso do barro, um ser vivo até há pouco, agora apenas repulsiva decoração.&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;-Desculpe lá, ‘xôr Jorge, deve-se ter metido debaixo e a gente não deu por ela...&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt;E nisto com a mão sacode o bicho morto do liso inox e volta a pousar o barro quente sobre a superfície agora já limpa. E vai-se embora.&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;-Sérgio! É pá...&lt;br /&gt;-Diga, ‘xôr Garcia! Que é que foi desta vez?&lt;br /&gt;-Então eu não pedi um Bitoque?&lt;br /&gt;-Tá aí o Bitoque! Que é que queria mais? Camarões?&lt;br /&gt;-Onde é que tá o Bitoque?&lt;br /&gt;-Tá aí!&lt;br /&gt;-Aí aonde, Sérgio? Aqui debaixo do ovo e das batatas não há mais nada!&lt;br /&gt;-Hii... desculpe lá, ‘xôr Garcia!... Devem-se ter esquecido na cozinha... Dê cá isso que eu já lhe trago o bife.&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt;...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas a refeição no Vela Azul não se limita ao prato principal. A sobremesa é igualmente caricata, sobretudo com o Sérgio por perto.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Se se pede um pudim, fica-se horas à espera. Se se pede o arroz doce, o Sérgio trata de trazer uma fatia de bolo, e se não se pede nada também é frequente receber-se alguma coisa, da mousse de chocolate à pêra bêbeda, tudo é possível.&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;-Ó Sérgio, eu não pedi nada disto!&lt;br /&gt;-É pá, agora aproveite e coma que tá bom; não vou levar isso p’ra trás!&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;E novamente se segue a cuidadosa e atenciosa arte de comer qualquer coisa no Vela Azul, com uma mão sempre a segurar o prato ou pires ou taça e sempre sem largar os talheres.&lt;br /&gt;E daí é o café, e depois adeus aqui está a conta.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Já cá fora, a sós, um sorriso pelo estapafúrdio, se em grupo a gargalhada, por vezes um a jurar para nunca mais nova visita, mas sempre volta, sempre quem comeu no Vela Azul lá volta, porque o Vela Azul está sempre cheio, e se o está, é só por uma coisa: ali pode não se comer nada de jeito, mas o divertimento está assegurado. E tal satisfação, não raras vezes, é bem mais nutritiva, substancial e plena que a de uma bela barriga dilatada.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;(escrito em 2002.03.10)&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/8534442-110477361223548098?l=chamam-se.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://chamam-se.blogspot.com/feeds/110477361223548098/comments/default' title='Post Comments'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=8534442&amp;postID=110477361223548098' title='0 Comments'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8534442/posts/default/110477361223548098'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8534442/posts/default/110477361223548098'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://chamam-se.blogspot.com/2005/01/chamam-lhe-o-vela-azul.html' title='Chamam-lhe o &quot;Vela Azul&quot;'/><author><name>Ric ;)</name><uri>http://www.blogger.com/profile/14679730585851880195</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='http://4.bp.blogspot.com/-xUFKkHvceDE/ThDtCj9b8oI/AAAAAAAAE80/wNsfg-HpGuI/s220/ric-o-matic.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-8534442.post-109844064137018473</id><published>2004-10-22T03:22:00.000-07:00</published><updated>2004-10-22T03:24:01.370-07:00</updated><title type='text'>Chamam-lhe “o espreita”</title><content type='html'>Sempre de parka verde sobre o corpo. As calças, de fazenda. Todas elas com todas as modas dos últimos 15 anos. Há quem aprenda história. Uma rapariga ‘freak’ de carne cheia inveja o modelo cinza prata. As mais gastas as púrpura, em reflexos a cinza e branco nas coxas. Não é estilo, mas a cor tingida aí desaparecida pela lima das mãos. A mão esquerda deixa-a quase sempre pendurada por preguiça; só a levanta quando é preciso coçar a testa, local normalmente visitado em insistente frequência pela mão direita. Dois ou três dedos bastam para afagar a pele e as raízes de uns quantos cabelos desgrenhados e grisalhos, secos e ralos, de onde caem ocasionais flocos de caspa. A boca deixa-se estar semi-aberta; fecha-a e abre-a com alguma regularidade (não tanta quanto a assídua massagem na testa e o meticuloso investigar das raízes capilares frontais) mas raramente para bocejar alguma palavra. É apenas ar que por ali entra e sai, vagarosamente, sem deslocar uma chama, melhor que um cantor de ópera. Os olhos, desengraçados e com as pálpebras assimetricamente dispostas, dão um ar tosco e esgrouviado sob as lentes amplas dos óculos do mesmo período perdido no passado que as calças.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Contudo, isso parecem ser pormenores ou meros decoros a polir a personagem, para quem as pessoas olham com algum desdém (mais elas) e distância medida com segurança de sobra e receio de contágio de alguma coisa (mais eles).&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Todos os que o comentaram a duas ou mais vozes lhe chamam já “o espreita”, porque normalmente é isso que faz a toda a hora e em toda a vida que se lhe conhece, por onde quer que ande ou esteja parado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No autocarro inclina-se e vê os artigos do jornal aberto no banco da frente. Raramente esboça um sentimento que nos mostre ironia, humor, preocupação ou mesmo compreensão pelas gordas dos títulos que se crê chega a ler. Olha também frequentemente os ponteiros do seu relógio e os das outras pessoas, descaradamente, insinuadoramente, despreocupadamente. Na Primavera e no Verão o interesse (ou simples entretenimento) estende-se aos decotes das raparigas e às coxas semi-nuas das que se sentam e trazem saias curtas que mais sobem com os bancos. Mas depois lá volta a coçar a testa com dois ou três dedos, quase sempre da mão direita, já se disse.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Os pés deixa-os soltos, a pousar no chão apenas pelos calcanhares, mas com mais incidência num deles, por causa das pernas cruzadas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quando o veículo onde segue balança, confia mais na mão direita para se segurar e aguentar na posição que leva desde a partida. Contudo, não aguenta por muito tempo a espera, e mesmo no meio da turbulência acaba por erguer a esquerda para renovar o labor de cuidar da testa e seus nós de fios de cabelo já entrelaçados uns nos outros.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Se o sinónimo do tique ou peculiaridade fossem correntes de pensamento, dir-se-ia estarmos na presença de uma central eléctrica. Mas a sua luz é fraca e pouca. Ninguém se aproxima. Menos ainda os que ficam de volta.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A barba de dois dias, os óculos de aro metálico dourado gasto e pálido, as lentes de tamanho exagerado... O relógio digital com bracelete de pano castanho... O lábio inferior pendente... As maçãs do rosto avermelhadas... O passo lento e torto... E de novo os olhos, por trás dos óculos tortos com as lentes muito amarelecidas pelo sol e por produtos impróprios. É impossível qualquer luz passar por eles sem perder pureza ou força; As rugas nos cantos dos olhos estendem-se e afundam-se mais por isso, e diria eu que não terá mais de 40 anos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Já o viram parar nas montras, como qualquer pessoa, mas em vez de varrer as prateleiras decoradas de acordo com a estação anual ou promoção ocasional, pousa a mão estendida entre a testa e o vidro para quebrar o reflexo da luz do dia, e ver mais fundo. Vê o que lhe interessa. Espreita quem lá está e o que faz. Olha lá ao fundo a empregada com alguma cliente ou uma criança que se afasta da avó e se põe a mexer numa fita sem ninguém mais ver que ele. Também não é raro vê-lo parado a olhar indiscretamente para duas mulheres à conversa no meio do passeio. Não dura muito. Só o tempo para elas perceberem “o espreita” e se porem logo em marcha. Eu, por mim, gosto de imaginar que ali está apenas um homem estranho, ou um ser humano de comportamentos estranhos, ou simplesmente sem jeito para disfarces para cobrir o seu interesse nas coisas simples e comuns dos homens no seu quotidiano. Mas não sei se conseguiria alguma vez defendê-lo, a ele e à teoria...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Chamam-lhe “o espreita” como podiam chamar-lhe “voyeur”, “curioso”, “cusco”, “chato” ou até mesmo “deficiente”, “retardado” e daí vir a entrar em campos mais injuriosos e flamejantes de irracionais e irreflectidas nomenclaturas caluniosas, animais, baixas e pouco dignas de chamar a qualquer ser humano. Podiam fazê-lo. E já o fizeram. Mas pouco me preocupa. Não sei se ele alguma vez as escuta. Talvez seja porque já terá percebido que a crueldade das legendas e títulos é essa mesma, a de reduzir qualquer coisa ou qualquer um a uma só característica, como se uma folha fosse demais para descrever ou a tinta estivesse racionalizada no uso. Ou talvez a razão maior seja o comodismo ou pura preguiça de ficar satisfeito pela metade.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pouco importa.&lt;br /&gt;A moral e a ética são palavras como as outras e erros de ortografia toda a gente os dá, e ninguém, aliás, nasce a saber escrever o que quer que seja.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“O espreita”, esse, lá continua, como sempre, a deitar os olhos a tudo, a alguém em particular, a alguma coisa específica, a vaguear, quem sabe, sem ter consciência.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu espreito-o a ele, aqui mesmo, hoje a viajar ao lado:&lt;br /&gt;-Que vamos espreitar agora, amigo?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;(escrito em 2002.04.28)&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/8534442-109844064137018473?l=chamam-se.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://chamam-se.blogspot.com/feeds/109844064137018473/comments/default' title='Post Comments'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=8534442&amp;postID=109844064137018473' title='0 Comments'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8534442/posts/default/109844064137018473'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8534442/posts/default/109844064137018473'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://chamam-se.blogspot.com/2004/10/chamam-lhe-o-espreita.html' title='Chamam-lhe “o espreita”'/><author><name>Ric ;)</name><uri>http://www.blogger.com/profile/14679730585851880195</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='http://4.bp.blogspot.com/-xUFKkHvceDE/ThDtCj9b8oI/AAAAAAAAE80/wNsfg-HpGuI/s220/ric-o-matic.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-8534442.post-109811458072223011</id><published>2004-10-18T08:47:00.000-07:00</published><updated>2004-10-18T08:49:40.723-07:00</updated><title type='text'>Chamam-lhe “o canário”</title><content type='html'>Chamam-lhe “o canário”. Mas também já ouvi chamarem-lhe “avezinha” ou “coisa fofa”. Os brincalhões conhecidos, os amigos à distância e um ou outro familiar que ainda lhe fala chamam-no Sandro. Os que passam pelos locais habituais por onde ele pára e levam já um copo a mais em cima chamam-lhe “fufa”, “querida”, “maricas”, “mariconço”. Mas de entre todos estes alguns há, e outros de outras categorias, que lhe chamam nomes de todo o tipo e calão baixo. “Prostituta de pilas” foi a última dessas, ainda ontem à noite.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A roupa, essa, terá sido a desculpa para o baptizado. Porque se chamam as coisas pelo que os olhos vêem. Talvez por isso tanta gente diga tantas coisas, porque vê mais do que pensa. Ou porque os olhos são dois e a língua é uma, e nunca fomos bons a resolver dialécticas e dilemas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Camisas de manchas de cores garridas. Camisas de riscas finas mas vivas. Camisas de seda com padrões de selva e ilhas tropicais estampadas. Azul céu com laranja vivo. Vermelho com verde. Calças de pinças e perna curta, a mostrar o tornozelo nu e os pés sem meias calçados por sapatos pretos, de pala. Às vezes traz sapatilhas, brancas, todas brancas, a condizer com a camisa interior de alças a servir por fora como qualquer outra. Decoros são um ou outro anel, por vezes um fio fino de ouro ao pescoço, no Verão um fio com missangas coloridas no tornozelo direito. Aparência descrita garrida, mas na realidade até algo discreta e, diga-se em abono da verdade, segundo os padrões da moda, muitas vezes mesmo elegante, na sua originalidade distinta.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas quem sabe, talvez seja mesmo por isto que lhe chamam canário.&lt;br /&gt;-Canário!&lt;br /&gt;-Olhó canááááário!&lt;br /&gt;-Ó canário queres o meu caralho?&lt;br /&gt;-Ó canário queres o meu bico?&lt;br /&gt;-Canááário! Ó canário! Queres um bico, canário?&lt;br /&gt;-Queres-me um bico, canário?&lt;br /&gt;...&lt;br /&gt;Talvez possa ser pela roupa. Eu não creio.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Se o Sandro cantasse, podia ser por isso. Podia ser pelo dicionário, pelo canto delicado que se diz ter o canário. Mas delicado mesmo, só o seu vulto, parado e sereno pelos poisos do costume, onde sente que está mais protegido. Nunca se viu a erguer-se no espaço, mas antes se abstém de subir ao poleiro e fazer como outros, a proclamar de galo o que são como se do zero passassem a mais que infinito.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O Sandro é diferente.&lt;br /&gt;Só isso.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Deixa-se estar a ler uma ou outra revista na borda da mesa. Apoia os braços no corpo, apertados, aparência esguia e franzina, frágil, quebradiça. Corpo magro, braços finos e pernas de palito. Qualquer um lhe podia partir um membro. A maioria já lhe quebrou mais do que isso. Retirou-se o respeito, esfumou-se o amor-próprio. Há quem diga que é por isso que não canta “o canário”.&lt;br /&gt;-Foi por outro.&lt;br /&gt;É a nova justificação apresentada por quem o vê ali parado na mesa do canto, sempre que está vazia.&lt;br /&gt;-Diz-se que foi o seu único namorado, ao contrário dos outros.&lt;br /&gt;-Pouco pássaro é o que tem só um ninho...&lt;br /&gt;Mas este tinha.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Só por um tinha pousado, só por um ousara usar o mais proibido: a diferença. E daí ficara conhecido, daí passara a posar na rua, os gestos em candelabros com ondulados rebuscados, delicados passos, a voz meiga, os olhos doces, o par ao lado.&lt;br /&gt;Por um tinha vivido igual ao que sentia. Menos igual em volta. Igual a si mesmo. Confuso para quem olha. E no entanto a rua é a mesma, o café o mesmo, a cadeira a mesma, o dia o mesmo, o tempo o mesmo, e todos juntos na mesma gaiola. Menos agora.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Lá fora é a sua prisão. Lá fora quando todos vivem lá dentro. A vastidão da solidão, a amplitude do silêncio, a infindável linha do horizonte despida, e no entanto, apertados, todos num cubículo, mas todos juntos. Menos ele, lá fora, à porta, mas sem estar à espera, apenas sentado na soleira e encostado à parede, a ver as sombras mudarem pela viagem da estrela.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Por vezes vê-se que escreve qualquer coisa. Mas é pouco o que escreve. Diz-se que escreve memórias. As empregadas de balcão que só o vêem de longe dizem que são saudades. Os mais cépticos dizem que são notas de trabalho, afazeres e deveres. Os mais taciturnos cartas de despedida. Os deprimidos a mensagem de partida. Há quem diga que é poesia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O Sandro, esse, por ali fica, raras vezes deixando as folhas -as suas ou de uma revista- para olhar o mundo lá fora presente nas suas pessoas, nas suas casas, nas suas máquinas, nas suas perigosas e fantásticas descobertas,  na sua ciência como na sua ausência, de rostos pobres e rostos afortunados, mais raramente ainda desprendendo um sorriso. Quem o viu diz que é de ironia; pelo infortúnio, entenda-se.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Talvez por isso as camisas coloridas. Uma convalescença. Um luto à sua maneira própria. A recordação de quem eram e de quem as usava. Apenas a persistência forçada, todos os dias, da cor de outrora sobre a presença negra de cada hora vivida agora.&lt;br /&gt;A maldição atinge todas as criaturas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ainda assim, por brincadeira há quem lhe chame canário, outros por prazer pela inflicção de sofrimento, outros pelas suas razões, alguns sem razão alguma. A maior razão de todas, contudo, e a meu ver, apenas uma: porque ele existe ainda, porque ele deixa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A sua flor encarnada está branca, mas respira, vive, resiste, aguenta. E se maior canto de sobrevivência existe, aí está a sua magnificência plena, e de borla, a toda a hora com uma chávena de chá de tília ao lado, sempre vazia. Nunca se o apanha sequer a mexer a colher. Quem sabe há muito deixou de acreditar no açúcar.&lt;br /&gt;Quem sabe...&lt;br /&gt;Quem sabe de onde terá vindo o seu nome, nem a escassa família afastada que o conhece o explica devidamente. Quem sabe onde acabará, se hoje se amanhã, se definhando longamente ou desaparecendo num instante; também isto ninguém sabe.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;De todos, só uma ou outra criança que o desconhece o chama e distrai. Há miúdas que lhe assobiam de longe. Até tipos que se sentam ao lado. Velhos bêbados há já demasiado tempo velhos e demasiado bêbados para notarem que se deixaram dormir a ele encostados. Um cão no chão bem perto dos pés. Um chato a provocar o desafio... E contudo, deste canário ali sentado, sempre que possível, no banco do canto, não sai uma palavra, nem um pio, só um olhar sereno e triste e abandonado, só um gesto vago a tirar da carteira o dinheiro já conhecido, só um sorriso cordial e tão fugaz que mal notado. Da sua boca não sai mais nada, nem explicações, nem perguntas, nem reclamações, nem lamentos. A tudo proclama com o seu canto próprio que só ele escuta e os outros conhecem de há muito, e sempre da mesma forma, sempre no mesmo tom, sempre com a mesma múltipla cor vestida, sempre assim, em silêncio, em completo e total silêncio.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mudo?&lt;br /&gt;Nem por isso.&lt;br /&gt;Mas se há pássaros que não voam, porque não haveriam também os que não cantam?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;(escrito em 2002.03.23)&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/8534442-109811458072223011?l=chamam-se.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://chamam-se.blogspot.com/feeds/109811458072223011/comments/default' title='Post Comments'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=8534442&amp;postID=109811458072223011' title='0 Comments'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8534442/posts/default/109811458072223011'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8534442/posts/default/109811458072223011'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://chamam-se.blogspot.com/2004/10/chamam-lhe-o-canrio.html' title='Chamam-lhe “o canário”'/><author><name>Ric ;)</name><uri>http://www.blogger.com/profile/14679730585851880195</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='http://4.bp.blogspot.com/-xUFKkHvceDE/ThDtCj9b8oI/AAAAAAAAE80/wNsfg-HpGuI/s220/ric-o-matic.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-8534442.post-109724288156453646</id><published>2004-10-08T06:40:00.000-07:00</published><updated>2004-10-08T06:41:21.563-07:00</updated><title type='text'>Chamam-lhe “futre”</title><content type='html'>Jogava no pé-de-meia lá do canto da vila. Terra batida e por vezes traços feitos a cal. Houve um estúpido e morcão de todo o tamanho que ainda chegou a sugerir soda cáustica. Lambada no focinho e virava logo bailarino da antiga Rússia.&lt;br /&gt;Bandalho, sovina, desprezível, rude, cru, duro, com o fulgor vermelho no rosto em corrida para pontapear ao poste e despejar o máximo de tosco palavreado até depauperar:&lt;br /&gt;-Cabrão! Filho da puta! Foda-se p’ró caralho! Sorte da merda! É sempre a mesma foda de sorte! Maldita cona que te pariu, bola dum caralho!&lt;br /&gt;Mas estaria condenado à pinga e à miséria de uma casa sem reboco e só laranja de preguiça?&lt;br /&gt;Estaria condenada a Luísa que, lado a lado em barreira como as feitas entre as quatro linhas pelos colegas do Futre, haveria de se casar com ele um dia. E não muito tarde diria:&lt;br /&gt;-Ai, que estou tão arrependida...&lt;br /&gt;Mas que fazer a três filhos de ranho a escorrer pelas narinas e terra nos cantos das bocas a ser lambida sem desprezo em vez da comida que escasseia numa casa sem camas e só colchões despejados no chão de cimento em bruto onde os seixos que espreitam por ter ficado de fora da capa cinzenta são vistos como as únicas pérolas esfregadas à meia-luz da deita, como bolas de cristal a quem se pergunta sempre “quando é que isto acaba?, quando é que isto acaba?, quando é que eu saio daqui?...”&lt;br /&gt;Mas não por agora.&lt;br /&gt;Atirou-se à piscina.&lt;br /&gt;-Queres que te dê cabo dessas fuças, mentiroso da merda!?! Ora diz lá outra vez que é mentira! Diz, seu grande filho-da-puta! Diz, se és homem! Ou não tens pila? Não tens pilinha? Queres que eu te dê uma puxadela, depois, no balneário, querida? É, fofa?... Ai p’ró caralho da menina, que nem sabe jogar futebol!...&lt;br /&gt;Bola na mancha. Não vale a pena levantar uma perna ou esticar a luva, a bola é mesmo para entrar, ou à injúria se juntará o escárnio e uma raiva furibunda tal que a primeira canela adversária pelo caminho a vir só terá um destino: a maca.&lt;br /&gt;Já está na rede.&lt;br /&gt;Urros de vitória e alegria esfusiante como espuma a jorrar do gargalo espumante de champanhe. É levantado nos braços. Para os da mesma equipa pouco importa a ética da jogada, o vocabulário na defesa da honra ou mesmo a violência física. Está do lado deles. E a biqueira que chuta fora nunca a nós nos toca a perna... e daí, talvez toque, porque sempre atrás tem de vir a perna para novo balanço, e com ela o calcanhar, e quantas vezes não magoa tanto a retaguarda sem cautela que a frente em investida!...&lt;br /&gt;Futre não quer saber de nada disso.&lt;br /&gt;Acaba a partida e há palmadinhas nas costas de todos. Luísa na bancada a tinir pestanas e roer as unhas. Um joelho bate no outro de tal maneira e com tal força que o spray de cloreto no saco do médico já esteve mais longe de se evitar ser tirado.&lt;br /&gt;Chama-lhe Futre por tudo isto.&lt;br /&gt;Porque tem o cabelo curto à frente e comprido atrás, como se usava nos finais de 80 lá fora, nos princípios de 90 cá dentro. À cigano, dizem alguns em surdina e só à orelha do vizinho.&lt;br /&gt;É má rês.&lt;br /&gt;Vaidoso e mesquinho.&lt;br /&gt;Perigosa cascavel.&lt;br /&gt;Mentiroso como as unhas que se cortam mas sempre voltam a crescer.&lt;br /&gt;Cabrão filho-da-puta!&lt;br /&gt;Suíno fedorento a quem se diz sorrisos e fala acenos sempre afirmativos.&lt;br /&gt;Mas que fazer?&lt;br /&gt;Sai cá fora sem passar o sabão enquanto o banho.&lt;br /&gt;Oscula a primeira que aparece a lamber com a língua de fora o batôn de cereja de efeito ‘gloss’, ou quem sabe não era, mas ficou pela saliva. Calhou, para sorte dele, que a primeira foi a certa, mas se não fosse continuava à mesma. Dizia que o amor é cego e que nem abrira os olhos. Uma qualquer cantiga. Elas quando caídas tropeçam em qualquer peta. Quando cheias dão chutos por qualquer coisa. Na maior parte do tempo nem numa nem noutra. Simplesmente não sabem nada. E é assim que ele pensa.&lt;br /&gt;E dali só uma paragem, na horda que o espera na rua, sempre na mesma banca de pedra à entrada da tasca de bilhares e matrecos. Escusado será dizer que de tacos não pesca uma e esgota sempre os prémios de jogo em cervejas emborcadas e oferecidas e cruzes canhotas é desta bolas atiradas ao pequeno recinto de madeira a apanhar tareia.&lt;br /&gt;Da família nunca irá anuir nada.&lt;br /&gt;-Tá no ir?&lt;br /&gt;-Baza.&lt;br /&gt;-Solta a cavalada!&lt;br /&gt;-É manada!&lt;br /&gt;-É nada, é matilha!&lt;br /&gt;-Tu é que só dizes burrada!&lt;br /&gt;-Vê lá se queres mas é apanhar com a vara, meu grande cabrão!&lt;br /&gt;E disto não se passa.&lt;br /&gt;Investida e ameaça, aqui e ali uma pega, fustigada a atmosfera e chamuscada só por um pouco a crosta gordurosa de cada um que à sua vez toca, logo tudo sai em debandada que há melhores coisas a serem feitas à mesma hora, e à frente, claro, sempre o capitão de equipa, a glória renascida de outros tempos na relva portuguesa, a esgueirar-se com a bola por entre os defesas e a rematar para a baliza em golos sucessivos de grande beleza! O Futre, pois claro! Jogador da realeza e de papo inchado com luz acesa. Ninguém o bate. Ele é que dá os enxertos de porrada. Mas tudo soa a piada. E logo acaba.&lt;br /&gt;Mas, perguntarão os curiosos, como pode tamanha animalidade subsistir à face do planeta sem escrúpulos e sem qualquer decência e ainda recolher taças e elogios e a melhor peça da montra?&lt;br /&gt;Recordar-se-ão do lamento de Luísa, e dos três putos a dormir bem cedo porque não há luz paga a não ser a da lua que se reflecte no seixo polido pela pele bem seca desde cedo.&lt;br /&gt;E da outra dica?&lt;br /&gt;Isso mesmo.&lt;br /&gt;Para quem só conta com a biqueira que chuta e não com o calcanhar que retorna a vida não dura muito sem uma mossa.&lt;br /&gt;Houve nova semente que brotou ainda mais ruim. Houve depois tragédia num dia de chuva com uma poça disfarçada à plaina da água onde mergulhou o pé numa entorse que não repousaria a sarar.&lt;br /&gt;Foi coisa de poucos meses.&lt;br /&gt;Dali, só a talocha.&lt;br /&gt;Ainda se arriscou a ser campeão na bola pequena, mas quem é que já ouviu falar de um Futre ao matreco a fazer carreira? Só de otários a cair de carrinho.&lt;br /&gt;E o tempo passou.&lt;br /&gt;Azar para a Luísa que em cedo tempo engravidou. Já a muleta fazia duas pernas e meia e ela queria tirá-lo fora, mas não a família, nem de um lado nem do outro. Depois veio a esperança, e o Futre sempre a bufar de cima a quem punha em causa que ele cedo voltaria. E mais não esperou. Não o regresso, mas outra queda, desta feita em estúpida travessia de rua fora da passadeira. Nem o seguro acudiu. O condutor pirou-se, apesar de nem ter qualquer culpa. Aqui já a família dela sacudia o capote, mas o cordel estava bem atado ao pescoço há muito, e a primeira chamava-se Joana. Não demorou a chegar o Filipe e a Manela. Hoje espera-se já que venha um Tiago ou talvez Teresa.&lt;br /&gt;Não pára.&lt;br /&gt;É Futre para a vida inteira.&lt;br /&gt;Gaba-se a toda a hora.&lt;br /&gt;Nenhuma rede aguenta o remate dele.&lt;br /&gt;E ri-se.&lt;br /&gt;Ela olha para o lado. Tem vergonha.&lt;br /&gt;Ele emborca mais um bocado. Já tem barriga. Qualquer dia até dali sai nova criança. Ou se põe a dar toques com o joelho.&lt;br /&gt;Não importa.&lt;br /&gt;Do passado ou do presente não há diferença na atitude. E Futre fica.&lt;br /&gt;Até um dia.&lt;br /&gt;Porque depois da chuva lavar a pedra e o vento do tempo varrer a memória ficamos todos a chamar-nos igual e a pesar o mesmo grão de poeira.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;(escrito em 2002.02.25)&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/8534442-109724288156453646?l=chamam-se.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://chamam-se.blogspot.com/feeds/109724288156453646/comments/default' title='Post Comments'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=8534442&amp;postID=109724288156453646' title='0 Comments'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8534442/posts/default/109724288156453646'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8534442/posts/default/109724288156453646'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://chamam-se.blogspot.com/2004/10/chamam-lhe-futre.html' title='Chamam-lhe “futre”'/><author><name>Ric ;)</name><uri>http://www.blogger.com/profile/14679730585851880195</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='http://4.bp.blogspot.com/-xUFKkHvceDE/ThDtCj9b8oI/AAAAAAAAE80/wNsfg-HpGuI/s220/ric-o-matic.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-8534442.post-109706793054421712</id><published>2004-10-06T04:15:00.000-07:00</published><updated>2004-10-06T06:38:33.960-07:00</updated><title type='text'>Chamam-lhe “Adão Manuel”</title><content type='html'>Aqui na terra&lt;br /&gt;chamam-me Adão Manuel,&lt;br /&gt;olham de longe a apontar o dedo&lt;br /&gt;e exclamam em sussurro&lt;br /&gt;“é o tosco à cata de papel”,&lt;br /&gt;que eu tão bem escuto do ouvido bom,&lt;br /&gt;escuto enquanto dou mais um passo a um canto,&lt;br /&gt;mais um passo a um canto sempre manco&lt;br /&gt;mas nem por isso eu menos ando&lt;br /&gt;e sempre encontro um bom pedaço&lt;br /&gt;de cartão, cartolina, papel pardo ou caixote para ser espalmado,&lt;br /&gt;e chego a todo o lado,&lt;br /&gt;vou a toda a parte,&lt;br /&gt;mais torto ou desajeitado&lt;br /&gt;mas ser diferente também é arte.&lt;br /&gt;Bem cedo a sopa sabe-me a manjar,&lt;br /&gt;mesmo que na taça e colher de ferro,&lt;br /&gt;Mas lá me diz o médico&lt;br /&gt;“Isso também é preciso”,&lt;br /&gt;diz-me sempre que o visito&lt;br /&gt;enquanto escrevinha nos papelinhos letrinhas e rabiscos que não percebo&lt;br /&gt;para a farmácia e farmacêutico,&lt;br /&gt;mas nunca os uso,&lt;br /&gt;não há dinheiro,&lt;br /&gt;e ao médico só lá vou porque é bom negócio,&lt;br /&gt;há sempre muitos papéis nos escritórios.&lt;br /&gt;Em geral os melhores não são os mais brancos,&lt;br /&gt;mas os pesados.&lt;br /&gt;Aos bonitos e com cheiro guardo-os para mim,&lt;br /&gt;já vou em mil,&lt;br /&gt;passei a conta há pouco,&lt;br /&gt;mas nunca se está satisfeito.&lt;br /&gt;Quanto aos meus dias,&lt;br /&gt;são todos iguais,&lt;br /&gt;ou como aprendi num grosso bloco, idênticos;&lt;br /&gt;Sempre a encher o carrinho que chia no veio,&lt;br /&gt;sempre a empurrar os quilos&lt;br /&gt;enquanto vou&lt;br /&gt;mas também enquanto venho.&lt;br /&gt;Mais um dia ganho.&lt;br /&gt;E não me canso nunca a meio.&lt;br /&gt;Por vezes ajudam-me;&lt;br /&gt;“Ó Adão, chega aqui!”&lt;br /&gt;E nisto dão-me os conhecidos jornais,&lt;br /&gt;uma rapariguinha uma vez deu-me postais&lt;br /&gt;e no meio dos embrulhos em cordel&lt;br /&gt;já encontrei cartas de amor pingadas de mel&lt;br /&gt;e rascunhos de testamentos&lt;br /&gt;e desabafos repletos de fel&lt;br /&gt;e até pautas de músicas&lt;br /&gt;ou fotografias com paisagens distantes,&lt;br /&gt;imagens pintadas com anjos, casas, coisas esquisitas que não percebo&lt;br /&gt;e, confesso,&lt;br /&gt;também já me cá chegaram senhoras com muito bom aspecto&lt;br /&gt;de pele despida em posição lasciva e com lingerie cheia de luxúria,&lt;br /&gt;um intumescimento a inchar-me o centro&lt;br /&gt;ao ponto de me deixar sem jeito...&lt;br /&gt;Outras mais velhas sem grande gosto&lt;br /&gt;e algumas inacabadas e ainda sem rosto,&lt;br /&gt;dizem que eram de um pintor que morreu,&lt;br /&gt;deram tudo,&lt;br /&gt;ou como se fala, “despacharam”&lt;br /&gt;(acho que uma delas era a própria mãe).&lt;br /&gt;Eu pouco me importo com as histórias,&lt;br /&gt;o fim delas é todo o mesmo,&lt;br /&gt;a prensa e a fábrica.&lt;br /&gt;Daqui a uns meses caem cá de novo.&lt;br /&gt;Creio que uma vez já me passou pelas mãos o mesmo papel que entreguei ao Sousa,&lt;br /&gt;é ele quem me recebe e pesa e paga,&lt;br /&gt;tem uma mulher simpática,&lt;br /&gt;“Tome lá uma fatia de bolo, Adão!”,&lt;br /&gt;costuma abusar do açúcar e da canela...&lt;br /&gt;A mim já pouco importa.&lt;br /&gt;A dentadura já há muito que deixou de ser folha nova.&lt;br /&gt;Mas nem tudo são rosas.&lt;br /&gt;No outro dia se não fosse um polícia&lt;br /&gt;pela rua tinham-me abalroado à pressa.&lt;br /&gt;Não há estradas para carrinhos de mão.&lt;br /&gt;Eu também não tenho carta,&lt;br /&gt;minha, pelo menos,&lt;br /&gt;muitas de muitos já entreguei ao Sousa.&lt;br /&gt;Há também uma velhota torta de língua,&lt;br /&gt;chama-me “vadio” e outras coisas que aqui não digo;&lt;br /&gt;Viro-lhe as costas;&lt;br /&gt;Se ela soubesse...&lt;br /&gt;Uma pena.&lt;br /&gt;Tanta palavra desperdiçada na boca de tanta gente.&lt;br /&gt;Tanta tinta escorrida para nada.&lt;br /&gt;Foi o que já disse a uma jornalista.&lt;br /&gt;Eu não vi a notícia na televisão&lt;br /&gt;mas disseram-me que fiquei bem,&lt;br /&gt;apenas a barba de alguns dias podia ter sido evitada.&lt;br /&gt;Sou um papeleiro&lt;br /&gt;sem férias, feriados e fins-de-semana,&lt;br /&gt;não sou advogado.&lt;br /&gt;A minha mãe chamava-me “pequeno carola”&lt;br /&gt;e dizia que eu era o mais esperto de todos;&lt;br /&gt;Tenho saudades dela.&lt;br /&gt;Hoje o que ouço é sempre o mesmo:&lt;br /&gt;“Lá vai o Adão ao papel”&lt;br /&gt;“Olha o tosco do carrinho”&lt;br /&gt;“Aquele ainda não percebeu que uma grama de cobre vale mais que um quilo de papel...”&lt;br /&gt;“Vadio!, sai da frente!”&lt;br /&gt;...&lt;br /&gt;Nesta terra chamam-me muita coisa.&lt;br /&gt;O engraçado é que ainda ninguém percebeu porque gosto de juntar papel;&lt;br /&gt;Porque leio,&lt;br /&gt;porque descubro mais sobre o mundo por onde não ando,&lt;br /&gt;porque me rio com os bonecos,&lt;br /&gt;porque eu não quero ser rico de dinheiro...&lt;br /&gt;...mas isto são frases feitas;&lt;br /&gt;Eu mesmo também não sei porque o faço.&lt;br /&gt;Chamam-me tanta coisa e nenhuma me parece em cheio.&lt;br /&gt;Eu também não sei ao certo como me chamo,&lt;br /&gt;só o primeiro e segundo,&lt;br /&gt;os outros esqueci há muito.&lt;br /&gt;Cá para mim,&lt;br /&gt;acho que vim parar a isto como um pássaro pára num ramo no meio de tantos.&lt;br /&gt;Chamam-lhe destino.&lt;br /&gt;Chamam-lhe outras coisas também,&lt;br /&gt;“escolha”, “objectivo”, “azar”, “sorte”, “acaso”...&lt;br /&gt;Porque também a idade já não dá para pensar de outro modo.&lt;br /&gt;Eu acho tudo engraçado,&lt;br /&gt;sobretudo ao que dizia a minha mãe:&lt;br /&gt;“Adão Manuel, um dia ainda hás-de ser um grande camionista,&lt;br /&gt;ou quem sabe,&lt;br /&gt;talvez até venhas a ter a tua empresa e toda a gente da terra te conheça!”&lt;br /&gt;Acho que ela sabia mais do que aparentava...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;(escrito em 2002.03.28)&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/8534442-109706793054421712?l=chamam-se.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://chamam-se.blogspot.com/feeds/109706793054421712/comments/default' title='Post Comments'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=8534442&amp;postID=109706793054421712' title='0 Comments'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8534442/posts/default/109706793054421712'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8534442/posts/default/109706793054421712'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://chamam-se.blogspot.com/2004/10/chamam-lhe-ado-manuel.html' title='Chamam-lhe “Adão Manuel”'/><author><name>Ric ;)</name><uri>http://www.blogger.com/profile/14679730585851880195</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='http://4.bp.blogspot.com/-xUFKkHvceDE/ThDtCj9b8oI/AAAAAAAAE80/wNsfg-HpGuI/s220/ric-o-matic.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-8534442.post-109662926477152558</id><published>2004-10-01T04:13:00.000-07:00</published><updated>2004-10-01T04:14:24.770-07:00</updated><title type='text'>Chamam-lhe “A Conheces”</title><content type='html'>Numa comum segunda-feira de um mês de Dezembro bem frio, manhã soturna e sossegada apesar de um imenso corrupio, um manto discreto cobre a cidade que desperta mal adormece.&lt;br /&gt;É gente.&lt;br /&gt;Os comboios existem porque deslizam. Nem é preciso puxar muito por eles mal embalam sobre os carris lisos e aprumados paralelamente em rectas e curvas desfeitas.&lt;br /&gt;Agradecem os que encostam as cabeças aos vidros.&lt;br /&gt;Miúdas negras de carapinhas esticadas com gel marcam de gordura a face translúcida. Um homem de velho como eufemismo baba-se sobre a gola do casaco. A senhora em frente atenta ao livro fino. A do lado presa à mesma palavra do mesmo artigo da mesma página da mesma revista, que é como quem diz distante e atenta a um pensamento, ou se calhar dormente latente. Em pé um ou dois tipos conversam. Algures alguns ajeitam-se nas cadeiras. Lá fora breu. Lá fora o mundo aparece a quem o olha num breve torcer de pescoço como nada. Só uma mancha escura pontilhada de luzes redondas na ponta que deixam uma cauda comprida à medida que o comboio avança. Lá fora o rosto escuro soa rouco e grave. Os motores em movimento. Em frente um rapaz estuda. Mãos escuras grossas e gretadas, entre os dedos uma caneta e um livro de inglês avançado, bem aberto; quem diria; ainda nem 7 da manhã nas horas; e olhar desperto; pequenos raios vermelhos de sangue desenham a branca corola do olho; roupa larga e pouca; a boca fechada, pulposa; o corpo grande assim que se levanta assim que o comboio chega.&lt;br /&gt;Estranho e misterioso mundo este das manhãs obscuras e soturnas de gente muda e enregelada pelo sol que ainda tarda cair sobre os telhados e as ruas da cidade que desperta.&lt;br /&gt;Abandonam todos as carruagens e lançam-se em pressas.&lt;br /&gt;As malas balançam e um casaco com duas faixas reflectoras abraça todos os olhares que se fixavam a meia altura baixa, entre o chão e a distância dos seguintes 3 ou 4 passos a dar. Os monitores estão de luto e apenas exibem em inglês um aviso de manutenção periódica; o tipo grande de livro entre os dedos também terá lido isto de certeza.&lt;br /&gt;Os cachecóis em alta fazem dos pescoços uma lembrança.&lt;br /&gt;Cigarros apressados prolongam o comboio para os passeios; mil e uma locomotivas para outras tantas carruagens humanas.&lt;br /&gt;E eis então que surge ela.&lt;br /&gt;Mediana, cabelo comprido e castanho claro, para o seco, escovado a custo em frente ao espelho antigo, um sorriso dilatado e congelado, os cantos dos olhos repuxados para trás por isso, olhos de um azul claro, voz feminina e audível, voz a soar a todos um dia, hoje, para já, a senhora baixa e gorda ali a dois passos:&lt;br /&gt;-Olá, como está? Tem visto a minha mãe? Está boa? Está boa, está. Temos de ir trabalhar já agora, não é? Vamos lá! Vamos, eu também vou andando. Vou já. Adeus!&lt;br /&gt;E nisto entrega um beijo na cara à mulher estupefacta.&lt;br /&gt;Corre e atira-se a um tipo de cor que conversava com o amigo do lado:&lt;br /&gt;-Aqui em Entrecampos há gajos bons, pá! Então?, ‘tás curtido!? E logo?, vais ao baile? Queres ir comigo? ‘Tás muita giro!... Tchau! Tenho d’ir!&lt;br /&gt;E assim como surgiu desaparece.&lt;br /&gt;O tipo olha para trás e de riso espetado pergunta-me a tiro:&lt;br /&gt;-Conheces?&lt;br /&gt;Eu sorrio e aceno que não.&lt;br /&gt;Ele volta-se para o amigo ao lado e ambos se riem. Depois, instantaneamente, como que assustado e lembrando quase do gás ligado em casa, pára, leva a mão ao bolso do casaco; dois segundos depois retoma o passo que levava, rindo-se, de novo, a comentar a personagem em vez do assunto que ambos levavam em viagem.&lt;br /&gt;Lá ao fundo, de ‘Kispo’ amarelo até aos pés, mochila grande de escola às costas, uma miúda aos saltos e correrias para trás e para a frente vai desaparecendo, entre a chusma que evita a chuva, ainda assim obrigando alguém a parar um segundo e despedindo-se logo de seguida.&lt;br /&gt;-Está a chover, não está!? Que cena!... Que cena, pá!... Cena lixada!... Tchau! Tenho de ir embora! Não te molhes!&lt;br /&gt;E parte para outra:&lt;br /&gt;-Olá!&lt;br /&gt;E para outra:&lt;br /&gt;-A minha mãe pôs-me uma omolete para comer hoje! Gostas de chantilly!?&lt;br /&gt;E outra ainda:&lt;br /&gt;-...Lá na rua há com cada gajo mais bom!!... Gostas de gajos?&lt;br /&gt;E mais outra:&lt;br /&gt;-Achas que a Penélope da novela vai engatar o Filipe? Queres ir comigo ao cinema? Não há direitos, pá! Não há mesmo. É uma cena!...&lt;br /&gt;E ainda:&lt;br /&gt;-Logo vou ver a minha tia que faz anos. Queres vir? Faz 50. Faz bolos de noz. Olha... sabes... tens uma mala muita linda. E olha... ... Tchau. Um beijinho! Tenho d’ir!&lt;br /&gt;E a panóplia de entrevistas oferecidas a repetir-se todos os dias ainda enquanto a noite está pousada na madrugada. E se alguém pára? Ninguém pára. Só depois, para ver se está lá a carteira, ou, na quase totalidade dos casos (presenciados pela minha pessoa) para perguntar à mais próxima:&lt;br /&gt;-Conhece?&lt;br /&gt;-Conheces?&lt;br /&gt;-Conhece a menina?&lt;br /&gt;-Sabe quem é?&lt;br /&gt;-Conhece esta doida?&lt;br /&gt;-Quem é?&lt;br /&gt;-A senhora conhece?&lt;br /&gt;-Conhece-a de algum lado?&lt;br /&gt;-...&lt;br /&gt;Conhece, conheces, conhece, conhecemos, conheceis, conhecem...&lt;br /&gt;Conhecemos todos, ou quase todos, um quase todos a caminho dos todos que viajam a esta mesma hora, esta estranha criatura, miúda agitada como tresloucada e perdida nas frases desconexas e investidas abruptas e assustadas até por vezes aos incautos e perdidos em pensamentos matinais transeuntes pouco habituados a estas coisas de seres humanos que falam sem lhes terem perguntado ou pedido alguma coisa.&lt;br /&gt;A todos, a pouco e pouco, se habitua e passa já um nome, assim que um desconhecido ali perto é abordado, e enquanto em volta os outros olham e recordam a sua vez que já lá foi, vão-se explicando, amigos ou meros conhecidos que caminham a lado e vêem a cena pela primeira vez:&lt;br /&gt;-É “A conheces”.&lt;br /&gt;Alguns ainda perguntam de volta:&lt;br /&gt;-Quem?&lt;br /&gt;-“A Conheces”.&lt;br /&gt;E com o passar do tempo, os meses deixando de receber a luz tão tarde e desaparecendo os cachecóis dos pescoços de novo aparecidos, o tempo amadurecendo e comunicando a todos o seu aumento, vão-se levando já na brincadeira os assaltos de conversa rápida d’A Conheces.&lt;br /&gt;-Aquela ali é “A Conheces”, é um pouco doida, a rapariga, mas boa pessoa...&lt;br /&gt;-Ó “Conheces”, chega aqui, filha! Toma lá este cacho de uvas, para a tua sobremesa!&lt;br /&gt;-É “A Conheces”... uma rapariga assim meio... meio chalupa... Mete-se com as pessoas.&lt;br /&gt;-...&lt;br /&gt;“A Conheces”.&lt;br /&gt;A desaparecer de ‘Kispo’ amarelo por entre a chusma.&lt;br /&gt;Um comboio passa na linha enquanto tudo se desvanece na cabeça de quem lá vinha. E a manhã clareia-se. E os cafés enchem-se. Daqui a alguns meses alguns estarão a uma mesa a fazer um exame final de inglês 5.  “A Conheces” ainda andará pelas bocas dos madrugadores à boleia de sono em direcção aos afazeres que tiverem a horas indecentes.&lt;br /&gt;“A Conheces”...&lt;br /&gt;A meter-se com este e aquele.&lt;br /&gt;A cumprimentar senhoras de meia-idade e velhotas de passo torto e tonto e miúdas como ela.&lt;br /&gt;Conheces?&lt;br /&gt;É “A Conheces”...&lt;br /&gt;“A Conheces”...&lt;br /&gt;Mas afinal, alguém a conhece?&lt;br /&gt;De tudo isto só posso dizer o mesmo que lhe disse a ela: Até logo, adeus; foi um prazer.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;(escrito em 2004.01.22)&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/8534442-109662926477152558?l=chamam-se.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://chamam-se.blogspot.com/feeds/109662926477152558/comments/default' title='Post Comments'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=8534442&amp;postID=109662926477152558' title='0 Comments'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8534442/posts/default/109662926477152558'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8534442/posts/default/109662926477152558'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://chamam-se.blogspot.com/2004/10/chamam-lhe-conheces.html' title='Chamam-lhe “A Conheces”'/><author><name>Ric ;)</name><uri>http://www.blogger.com/profile/14679730585851880195</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='http://4.bp.blogspot.com/-xUFKkHvceDE/ThDtCj9b8oI/AAAAAAAAE80/wNsfg-HpGuI/s220/ric-o-matic.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-8534442.post-109653781475206212</id><published>2004-09-30T02:49:00.000-07:00</published><updated>2004-09-30T02:50:14.753-07:00</updated><title type='text'>Chamavam-lhe “O Marinheiro”</title><content type='html'>No dia 1 de Janeiro do ano de 2002, mais conhecido pelas bocas dos transeuntes como o “dia de ano novo”, pelos bancários e economistas como o “dia de estreia do euro”, pelos trabalhadores da meia-noite como o “nunca mais passa?!” e pela minha avó simplesmente como “ano novo ou ano velho são todos iguais!”... Corria, portanto, já o primeiro dia do ano a seguir ao anterior - para os curiosos, a saber uma terça-feira- quando todos os locais de uma pequena vila deixaram de ver, nas regulares ocasionais aparições pelos cafés e pastelarias e restaurantes aquele que era conhecido e a quem chamavam de “Marinheiro Ex-Reformado”, ou simplesmente “O Marinheiro” ou, ainda, “o Ex-Reformado”, que isto gente parcial abunda por toda a parte..&lt;br /&gt;Quem saberia a sua real situação, desconhecia-se, mas era caricata. As perguntas sucediam-se como a praça ao meio-dia, mas as respostas desertificavam-se como a praia vista de madrugada. Pelas bancadas dos cafés e varandas de vizinhas, contudo, era certa a nascente do bizarro título, pois que só aí mesmo surgia este tema para conversa.&lt;br /&gt;Mas que fazia ele antes? Pescador ou marinheiro.&lt;br /&gt;Mas chegara à reforma?...&lt;br /&gt;Quem saberia?...&lt;br /&gt;Sabia-o o próprio, de certeza.&lt;br /&gt;Mas alguém lho escutara?&lt;br /&gt;Alguém o escutara?...&lt;br /&gt;Talvez o tivesse dito num momento de clareza de voz sobre as outras sempre amontoadas.&lt;br /&gt;Mas em que dia?...&lt;br /&gt;Quem tinha estado atento?...&lt;br /&gt;“O Ex-Reformado”...&lt;br /&gt;...Posição de vida curiosa para quem escutava tal coisa pela primeira vez, mas como não o escutava da boca do próprio tornava-se assim matéria mais para um sorriso que título de loucura. Seria um homem indeciso... Ou talvez um rotineiro ciclo do faz e desfaz, desiste e volta a tentar... um daqueles velhos que do hábito de uma vida a trabalhar já não consegue estar quieto.&lt;br /&gt;O facto, esse indesmentível e que ficaria mesmo para a história da vila, é que nesse primeiro dia do ano se deixou de ver pelos poisos de costume o conhecido de longe marinheiro, pescador, ex-reformado solitário misterioso.&lt;br /&gt;Os que, do tempo tendo-o visto mais do que uma vez, podiam agora recriar parte da sua  rotina, relatando em pequenos movimentos de braços -a maior parte apoiados numa coxa ou sobre o pau de uma bengala- como aquele homem se deixava estar por ali, sempre discreto, sempre a uma mesa sentado de forma desleixada, desajeitada e descuidada, sempre de camisa grossa com as pontas de fora da camisola e quase sempre de costas voltadas para a parede. Sempre assim. O corpo começava curvado sobre a mesa, depois ia-se voltando, ficando de lado, e a dada altura já tinha escorregado pela cadeira envernizada e a mão segurava a cabeça, uma cabeça robusta e redonda e de cabelos desalinhados e grisalhos a cobri-la, uma cabeça com um rosto definido e de rugas fundas, barba por fazer e rija, dois olhos cinzentos que olhavam o que iam olhando por olhar, ou realmente estariam menos atentos do que aparentavam e atentavam nos restantes, em amizades com as companhias humanas e alimentares. Quanto a si, quase sempre se deixava entregue apenas ao seu copo de cerveja, que nunca bebia até ao fim, alguém o notara uma vez. E quem dono dos cafés, não perguntava mais do que aquilo que já se sabia. E o marinheiro na ex-reforma nada também dizia por acrescento, nem sequer uma nova ruga se lhe desenhava por isso, talvez um completo alheamento a tal curiosidade fosse o que lhe pairasse na alma verdadeiramente.&lt;br /&gt;E assim, com uma história comprovada e conhecida que se poderia resumir a duas linhas de uma coluna de jornal, se deixou de saber no primeiro dia do ano de 2002 mais alguma coisa desta presença regular, ainda que discreta e só notada pelos de maior frequência nas cadeiras e com tempo de sobra, e também com alguma visão atenta.&lt;br /&gt;Contudo, o mais triste nem seria este dia de decisivo abandono ou desaparecimento deste homem tão curioso aos outros como tão pacífico e reservado.&lt;br /&gt;O mais triste foi, meses depois do seu desaparecimento confirmado pelo tempo, quando já o próprio facto esmorecera pelo acontecimento em si ou quando só os resquícios do seu nome e título sobreviviam, aparecendo a seguir aos temas vagos de recurso “tempo”, “clima” e “lá por casa”, foi só então que se descobriu, por um qualquer parente afastado ou conhecido de confiança que veio limpar e vender a casa –falada e nomeada localmente por “velha barraca carcomida”-, que muitas histórias havia da boca deste homem escritas em papel, histórias que decerto, se alguém lhas tivesse pedido, certamente as teria contado, apenas e muito provavelmente com a mínima exigência de ser à noite e em volta de uma lareira, ao borralho, esquentado até mais pela atenção em volta e pelo copo ao lado.&lt;br /&gt;Recriminaram-se alguns por não terem insistido em quebrar-lhe o silêncio, puxando a língua deste velho até muito bem conservado. Outros cedo esqueceram isso e do mesmo modo se debruçaram no testemunho legado ao futuro ou mais propriamente ao acaso.&lt;br /&gt;Eram papéis intermináveis, folhas sobre folhas que se juntavam em blocos e formavam pilhas onde se seguravam prateleiras intermináveis com mil e um artifícios e ‘souvenirs’ artesanais que fizera e ali deixara, como tudo o resto, à excepção da sua presença em corpo e vestimenta.&lt;br /&gt;De entre todas, havia uma bela história, com certeza autobiográfica, a narrar as aventuras e desventuras de um jovem oficial da marinha; este, segundo se contava, ter-se-ia apaixonado verdadeiramente num certo dia de Verão, depois de mil portos visitados e o triplo das viagens rendidas ao serviço da companhia; contudo, o destino ou a vida simplesmente em si, fora-lhe traiçoeira e trágica, e apaixonara-se o jovem oficial pela única mulher que, de entre milhares, viria a desaparecer no mar, fatidicamente, um ano depois de consumado o casamento de ambos, ocorrência esta suficiente e, segundo alguns, até justificável e sem repreensão, que levou então o jovem oficial a desistir da carreira de uniforme e a enveredar por um labiríntico rodopio de mais de 30 anos no mar a segurar a roda do leme pelo traço de rotas mercantes secundárias e perigosas tanto quanto a morte; Mediterrâneo, Atlântico e até o Árctico, sem contar a rotina pelo Mar do Norte... sempre a desafiar a vida, sempre no fio da navalha, e nunca, nem por uma só vez, o barco em que seguia se voltou, nunca mais de uma vela se rasgou, nunca um motor quebrou... após tal evidência aceite daquilo que o esperava, ou melhor dizendo, do que ele teria de esperar, afastou-se de todos quantos conhecia e foi encontrar, remotamente, um local calmo e pacífico, onde numa simples barca se deixou a apanhar peixe diariamente; aprendeu meia-dúzia de palavras da língua natal da sua nova casa (ahh!, exclamaram os naturais e os biógrafos quando deitaram pela primeira vez os olhos aos papéis com as histórias) e foi vivendo do pouco dinheiro do peixe seco que então já ia reunindo alguns adeptos, escassos fanáticos mas vários curiosos; com o tempo, a carne ficara mais balofa e envolta por gordura, e apenas nas arestas da face a expressão seca pelo sol e pelo sal se mantinha; a barba era sempre de dias; a expressão distante; a voz muda; enfim a figura desaparecera como aparecera.&lt;br /&gt;Nas demais histórias incluíam-se, entre as que posteriormente foram traduzidas e publicadas, a de um caranguejo medroso e a de um cavalo marinho que saltava mais ostras juntas que qualquer outro, relatos de viagens, aventuras no mar alto (colocadas estas nas prateleiras temáticas das bibliotecas junto ao “Moby Dick” do Melville, o que decerto muito teria orgulhado ao marinheiro agora também autor misterioso) e também pequenos contos inacabados, outros refeitos e com finais diversos, alguma poesia, narrações desconexas, vários diários e muitas cartas, ainda seladas e deixadas por enviar.&lt;br /&gt;Alguns desenhos e ilustrações deste misterioso estrangeiro, que preenchiam várias das páginas brancas e virginais na compra dos cadernos, foram também reproduzidas na tipografia local da vila, depois distribuídas pelas crianças, que as pintaram a seu gosto, e finalmente os melhores resultados expostos no salão da Câmara; daí, alguns seleccionáveis, entre dedicácias e pinturas de autores consagrados em homenagem à personagem misteriosa, seriam também reproduzidos, expostos e publicados, este último verbo apenas para uma dezena de entre os previamente escolhidos, a rematar a compilação com o aval e mecenato da Câmara, a celebrar as tradições piscatórias e marítimas da vila.&lt;br /&gt;A verdade, no entanto, é que o desaparecimento de alguns homens, ao que parece, é rápido e instantâneo, quando de imediato se dá pela sua partida, como também pode ser presenciado e mantido por instantes mas sem se afastar do fugaz, situação em que o facto não passa despercebido mas também não ocupa preocupações, como pode ser nunca desprovido de mistério, tragédia e uma boa dose de romantismo, no caso de raros factos haver para explicar e descrever o enquadramento, sempre gerando portanto efabulações, dúvidas e várias versões para a mesma história incompleta, todas tão parcas de confirmação quanto recheadas de segredos, enigmas e até mitos, assim alongando-se no tempo.&lt;br /&gt;As crianças, essas, aproveitam o que existe para sussurrarem aos ouvidos umas das outras, e sobretudo das mais velhas para as mais novas e pequenas, nas noites mais nevoentas e frias, que o marinheiro de lança à caça de baleias deixará o mar alto para vir à costa e bem depois bem dentro da vila espetar a lâmina e apanhar para si o primeiro desgraçado, afogando-o em seguida e sem piedade, voltando depois sedento para os indesejados, os amedrontados, os que chorarem ou gemerem nem que baixinho debaixo dos lençóis.&lt;br /&gt;Os pais deixam as lendas levitar e vaguear com sorrisos nostálgicos.&lt;br /&gt;Os mais velhos de todos, de mãos nas coxas e bengalas, voltam a repetir os mesmos relatos sobre “O Marinheiro Ex-Reformado”, agora já nomeado como “Marinheiro Desaparecido”, que a excertos colados aqui expus neste primeiro dia do ano de 2002, quando vão já começando a circular moedas novas pelos dedos das mãos de todos, pelos balcões ora sujos ora limpos, pelos bolsos mais pesados.&lt;br /&gt;Distantes de tudo isto, a apenas alguns metros, na areia da praia, as gaivotas vão levantando voo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;(escrito em 2002.01.01)&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/8534442-109653781475206212?l=chamam-se.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://chamam-se.blogspot.com/feeds/109653781475206212/comments/default' title='Post Comments'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=8534442&amp;postID=109653781475206212' title='0 Comments'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8534442/posts/default/109653781475206212'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8534442/posts/default/109653781475206212'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://chamam-se.blogspot.com/2004/09/chamavam-lhe-o-marinheiro.html' title='Chamavam-lhe “O Marinheiro”'/><author><name>Ric ;)</name><uri>http://www.blogger.com/profile/14679730585851880195</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='http://4.bp.blogspot.com/-xUFKkHvceDE/ThDtCj9b8oI/AAAAAAAAE80/wNsfg-HpGuI/s220/ric-o-matic.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry></feed>
